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Opinião06/09/2019 | 10h21Atualizada em 06/09/2019 | 10h21

Gilmar Marcílio: assédio

Ainda persiste um traço indelével de machismo pairando sobre uma questão dolorosa: a do assédio

Ainda persiste um traço indelével de machismo pairando sobre uma questão dolorosa: a do assédio. Ao saber que suas esposas ou namoradas foram forçadamente submetidas a essa trágica experiência, muitos homens apresentam uma reação curiosa, para dizer o mínimo. Antes de expressar qualquer amparo ou manifestar raiva do agressor, têm uma preocupação de outra ordem. Inexplicavelmente, bombardeiam-nas com perguntas do tipo: tem certeza que não fez nada para provocar isso? Você por acaso teve algum prazer? Isso se repete em muitos casos, segundo depoimentos das vítimas.

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Pois é, são resquícios que deveriam ter sido abandonados lá no período medieval, sobretudo numa instância como essa, mas a verdade é que a maioria de nós ainda se relaciona na estrita observância de critérios de “propriedade privada amorosa”. Não consigo imaginar o sentimento de asco e horror que deve tomar conta de alguém que é forçado a se disponibilizar sexualmente sob violência. Por incrível que pareça, muitas mulheres também se culpam pela situação, acreditando que, em algum momento, deram margem para que isso acontecesse. Principalmente quando o cerco se dá em local de trabalho e o peso da hierarquia paira soberano. É uma circunstância dramática e que deixa marcas por toda a vida. Acrescido da incompreensão e da falta de esteio dos seres que lhe são caros, acaba por potencializar o drama.

Embora vivamos numa época em que o privado ganha status de excentricidade, aqui entramos no campo do que não pode ser questionado. Ser forçado a uma intimidade indesejada, com alguém quase ou totalmente estranho, só pode gerar um profundo trauma, que precisa encontrar apoio não somente terapêutico, mas sobretudo emocional dos que estão próximos. É triste constatar que no universo masculino ainda prossegue uma visão tão equivocada. Muitos maridos, ao serem informados do ocorrido, acabam desenvolvendo comportamento homicida. Porém, ele está claramente conectado à vergonha por ter compartilhado à revelia o que considera seu, desobrigando-se de se solidarizar com quem sofreu um ato tão torpe. Talvez seja por isso que um imenso contingente não denuncia o estupro. Continuam padecendo caladas, pois sabem que as consequências de uma fala podem ser tão ou mais dolorosas do que o silêncio.

Às vezes, penso que a castração química para os predadores poderia ser uma solução, mas me contenho. Expô-los ao escárnio público é a mais maneira civilizada de mostrar que o corpo, ainda e sempre, deve ser inviolável.

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