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Opinião19/09/2019 | 07h00Atualizada em 19/09/2019 | 07h00

André Costantin: Anaconda

Rainha do seu habitat, Anaconda percebe a presença humana cada vez mais predatória no seu ambiente

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Um velho amigo me visitou em julho para irmos à caça de cogumelos aqui pelas voltas da serra. Pacientemente, embarcados na pequena guerreira japonesa Dahiatsu ano 1994, de nome Feroza, giramos três dias pelos corredores de campo das cercanias da Lomba do Vento, catando histórias e os adoráveis porcinis. 

Quando Oliviero retornou para São Paulo, ficou no criado-mudo do sótão um livro em espanhol, entre outros que se revezam em leituras fragmentárias na boca da noite: Los Desterrados, de Horacio Quiroga (1878-1937). Iniciei pelo conto intitulado El regreso de Anaconda, “mastigando bem as palavras” – expressão que ouvi certa vez do escultor João Bez Batti. 

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Anaconda era uma exuberante serpente do Paranahyba, na Bacia do Paraná. Recém chegava aos seus 30 anos de idade, dez metros de comprimento. Rainha do seu habitat, Anaconda percebe a presença humana cada vez mais predatória no seu ambiente, e planeja – sinuosa – um plano para migrar até as grandes correntezas do rio Paraná, no advento da enchente que se anunciava aos instintos dos animais do pântano, então castigados por uma penosa estiagem. 

Na entrada das águas, Anaconda empreende grande viagem; desce os acidentes e refluxos do Paraná, chegando até as fronteiras movediças de Missiones, território literário e mágico de Quiroga, entre origens nativas, portuguesas e platinas. Na aventura da cobra magistral, está o encontro com um homem moribundo em uma pequena balsa à deriva no leito do rio. Ele está ferido no pescoço. Ao invés de devorá-lo, Anaconda protagoniza uma inusitada vigília junto àquele ser, humano e morrente, até o desfecho da história.

A Anaconda de Quiroga é uma fascinante alegoria da luta do homem com a natureza. Fábula premonitória da nossa incapacidade de dominar o planeta com respeito e cuidado, fiéis que somos à benção – e maldição – do criador: “crescei e multiplicai-vos; dominai toda a Terra”. 

Enquanto escrevo estas linhas, o avião deixa o planalto central e entra no alto cerrado; logo, a imagem da Floresta Amazônica, ameaçada pelas chamas insanas do inferno que tomou conta do Brasil. Levo o livro de Quiroga para devolver a Oliviero, no barco Gaia, atracado em Santarém – típica gaiola amazônica, de madeira, pequena e valente, uma Feroza.

Serão dez dias de navegação e registro pelos rios Amazonas e Paru. E, nesta quinta, 19 de setembro, dia em que nasci, talvez ao cair da tarde eu mergulhe do Gaia ao fundo do rio. Então sonharei com Anaconda.

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