André Costantin: aluga-se - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião05/09/2019 | 07h00Atualizada em 05/09/2019 | 07h00

André Costantin: aluga-se

(das conversas com urubus)

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Tem gente que não entende meus colóquios com Urutau e Alfredo, amigos urubus do trevo de Monte Bérico. Sinal de que lêem. O fato é que hoje de manhã, no cruzamento com a Rota do Sol, lá estavam eles, apreciando o cadáver de outra galinha vermelha ofertada aos entes sobrenaturais. Em volta, maçãs vermelhas, entre papéis crepon, já na mira dos joão-de-barro e bem-te-vis.

– Hola, Urutau, Alfredo! Dia de sorte, hoje?

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– Bom dia, Carlos. Na verdade, quanto pior a realidade humana, melhores os nossos banquetes – responde Urutau (Alfredo, vocês sabem, não perde tempo em devaneios). – Mais a miséria se insinua, mais macumba brota aqui. Acho que só uma nova guerra dos humanos seria mais proveitosa para a nossa espécie.

– Estamos tentando, Urutau! Talvez a gente chegue lá, se não tropeçarem os cavaleiros do apocalipse da nova ordem mundial: à frente, o Napoleão anacrônico da América do Norte; atrás, anões políticos e capitães do mato.

– O Sr. observou, nestes anos, que a maionese social parece ter desandado desde que construíram aqueles pavilhões industriais ali, descomunais, e neles subiram grandes placas de “ALUGA-SE”?.

– Sim, Urutau. Parece que esses monstros de concreto foram um sinal. Em que pese a fixação dos gringos em construir pavilhão para alugar, curioso traço da mentalidade regional, esses galpões vazios, já em ares de abandono, dizem algo da bolha da “Ordem e Progresso” que o Brasil tenta inflar volta e meia – com ainda mais ênfase agora. Daqui até o centro da cidade, é um desfile de pavilhões e salas para alugar. Não só isso: aluga-se terrenos vazios, esquinas, porões de casas. Na quadra do meu trabalho, em São Pelegrino, vizinhança do extinto Habbibs, que cheirava mal há anos, hoje é um desfile sequencial de plaquinhas de “Aluga-se”. No sábado de chuva, andei pela RS 122, no eixo que tangencia o shopping: outro amostruário de salas vagas; nas portas, o mantra “Aluga-se”. Só mais adiante, aos pés do tosco simulacro da Estátua da Liberdade, anunciando a novidade de uma megaloja que veio dar à cerração, parecia existir algum movimento – se consumo ou cortejo da curiosidade, não sei.

– Pois, Carlos, já cantava o profeta baiano Raul Seixas, nos idos de 80: “A solução é alugar o Brasil.”

– Tu escutas Raul?

– Como não? Muitas vezes, lá no pinheiro da tua casa. Janelas abertas, rodando aquele velho vinil no toca-discos: “Tá na hora agora é free / Vâmo embora / Dá lugar pros gringo entrar / Esse imóvel está para alugar ah ah ah ah”.

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