Adriana Antunes: dona Jandira - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião24/09/2019 | 07h00Atualizada em 24/09/2019 | 07h00

Adriana Antunes: dona Jandira

Dona Jandira é uma senhora que desafia o tempo

Dias atrás recebi uma mensagem no Whats de uma aluna muito querida, já na altura de seus 82 anos que me questionava: "o que você está fazendo, está trabalhando muito?" e finalizava de um jeito muito peculiar e engraçado, "eu estou sentada". Num primeiro momento ri com o inusitado da situação, depois fiquei reflexiva. Dona Jandira é uma senhora que desafia o tempo. Sobe e desce escadas numa rapidez impressionante e sempre em cima de um salto plataforma, pinta o cabelo, faz artesanato, gosta de bailes, e domina o Whatsapp. Um dia decidiu que iria fazer obras de arte com conchas do mar. Recebo uma mensagem de uma senhora dizendo que tem muitas conchinhas e precisa fazer alguma coisa com elas. Diz que gostaria de fazer corujas, elefantes, pinheiros de natal. Disse também que finalizada as aulas me daria as conchas que eu quisesse. O detalhe é que nunca tinha ouvido falar desta senhora. Fui olhar na foto de perfil e lá estava ela em seu aniversário de 80 anos, toda feliz. Questionei como ela havia me encontrado e ela explicou que havia procurado no Instagram pessoas que sabem fazer arte com conchas. Achei uma graça, pois nunca fiz isso na vida, mas pensei que se ela havia chegado até mim, eu iria até ela. Combinamos um encontro e lá fui eu, cheia de inexperiências para artes marinhas.

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Dona Jandira me recebeu sorrindo, elogiando minha pontualidade. Subimos um lance de escadas e entre as compotas deliciosas de figo e pêssego, montanhas de conchas. Conchas de todos os tipos. Conchas pequenas, conchas amarelas, conchas brancas, conchas que pareciam orelhas de coelho, conchas fechadas, conchas abertas, conchas, conchas, conchas. Sentamos e ela me explicou que queria fazer corujas e elefantes como os que via no Pinterest. Não é que ela tinha uma conta no Pinterest? Para minha surpresa, pois tinha. Lhe expliquei que nunca havia feito nada com conchas, mas que se ela topasse poderíamos descobrir juntas um modo de fazer o que ela queria. Foram encontros divertidíssimos. Rimos muito. Ouvi histórias do tempo em que era moça, sobre o seu casamento, o nascimento dos filhos, a morte do marido, a solidão que sente, a relação com as amigas, os bailes de domingo, as idas para a praia, tudo isso misturado a experimentos com diversos tipos de cola, pudim e sobremesa de pêssego em calda. Fizemos algumas corujas. Na verdade, Dona Jandira sabia mais fazer corujas do que eu. Eu fiz ratos e coelhos com as conchas, ou seja, a professora é chamada para uma coisa e faz outra totalmente diferente.

Também, nunca conseguimos finalizar um elefante, pois a cola corroeu todo o isopor e o abandonamos pela metade, pobrezinho. Gosto muito de receber as mensagens da Dona Jandira, são sempre muito divertidas e me fazem pensar que a vida precisa ser vivida de modo mais leve, mais simples e com sabedoria. Sabedoria de poder dizer que se está sentada, sem fazer nada e não sentir nem um pingo de culpa por isso.

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