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Opinião30/08/2019 | 16h03Atualizada em 30/08/2019 | 16h03

Pedro Guerra: Natalia

A vida é sobre ter para quem voltar quando a gente pensa que já não tem mais volta

Pedro Guerra: Natalia Antonio Giacomin/Divulgação
Foto: Antonio Giacomin / Divulgação

A Natalia chegou há quase dez anos e agora está de malas prontas para ir embora. Mas por que agora? Justo agora?! Se bem que é certo que eu estaria me perguntando o mesmo caso a notícia da mudança viesse daqui a 2 meses, 2 anos...

Quando a Natalia disse que ia mudar para outro lugar, eu passei a repensar tanta coisa. Acho que foi um recado, uma forma da vida me forçar a exercitar uma autorreflexão: adianta sentir saudades quando já perdemos? Aliás, o que é a saudade se não um arrependimento de tudo aquilo que gostaríamos de ter feito e insistimos em adiar?

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Não nasci para despedidas, o que é estranho porque a morte é uma delas, e desde que nos conhecemos por gente nós sabemos que este é um caminho inadiável. Então lidar com qualquer que seja o tipo de afastamento faz com que as rotinas se quebrem, que os eixos estremeçam, e assim nos moldamos a novos formatos de convivência, amizades, destinos e... Já nem sei mais. Têm ausências que nos fazem sentir perdidos.

Assim sendo, a Natalia é a prova de que estamos quase sempre correndo, mas quase nunca para onde deveríamos. Sabe aquela música mega clichê dos Titãs, né? “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer...”. Então, eu queria ter trabalhado menos e passado mais tempo com a Natalia. E a culpa, nesse caso, é inteiramente minha.

É dever do ser humano deixar ir, assim como é obrigação fazer ficar. Isso enquanto se tem - enquanto nos temos. Eis aqui as minhas alternativas rabiscadas no canto de um caderno velho: que vivamos como num filme que 90 minutos depois chega ao fim, então – sem muita pressa, mas com a certeza de que tudo é finito, e que os momentos nunca mais voltam (é tudo singular); que saibamos rir e rir sem vergonha, dentro de casa ou no meio de um bar meio cafona mesmo; que possamos agradecer não só presentes, mas também as presenças; que possamos perceber a simplicidade de todas as coisas e deixar escapar: você está aqui, comigo e agora – e que não haja tempo para se pensar “até quando?”.

E o mais importante: que tenhamos coragem para falar. Tudo e agora, nunca depois. Alguns depois nunca chegam. Então, se não for tarde: boa sorte, Natalia. Vai dar tudo certo. E se o certo parecer errado, eu ainda vou estar aqui. Afinal, a vida é sobre ter para quem voltar quando a gente pensa que já não tem mais volta.

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