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Opinião23/08/2019 | 16h57Atualizada em 23/08/2019 | 16h57

Nivaldo Pereira: vida ou morte?

Dar um happy-end a essa história depende de nós

Nivaldo Pereira: vida ou morte? Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

É preciso lançar mais luzes sobre a atual conjunção de Saturno e Plutão em Capricórnio, sincrônica a um ciclo de crise e contração no mundo. Para além de governos conservadores, censura e repressão, a manifestação desse padrão nos atinge pessoalmente como ondas de medo, desesperança, ansiedade e depressão. Como antena e tradução do psiquismo coletivo de cada época, a arte já vem ilustrando isso. No cinema, os trailers dos próximos filmes só mostram cenas catastróficas ou de lutas com monstros e assassinos. Vejamos a literatura em 200 anos de encontros entre Saturno e Plutão, para melhor compreender o paralelismo temático desse padrão.

Nascido sob um conjunção desses dois astros, em 1819, o escritor norte-americano Herman Melville escreveu sua obra máxima, Moby Dick, no encontro seguinte de Saturno e Plutão, entre 1850 e 1851. A perseguição compulsiva do Capitão Ahab à grande baleia branca é uma metáfora do mal que habita os porões do homem, aqui projetado para fora, na natureza. É comum, nesses ciclos planetários, uma cruzada cega do homem contra o mundo primitivo e natural. Índios, animais, florestas e rios que o digam.

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Amigo de Melville, Nathaniel Hawthorne publicou no mesmo período A Letra Escarlate, outro clássico da literatura dos Estados Unidos, contando a história de uma mulher punida por adultério numa comunidade puritana. Condenações morais, violenta repressão sexual e busca de bodes expiatórios costumam vibrar em sintonia com Saturno e Plutão. Imagine quando a transgressão vem de uma mulher!

Na conjunção posterior, em 1883, nasceu o tcheco Franz Kafka, que escreveu no ciclo seguinte de Saturno e Plutão, em 1914 (quando uma guerra mundial estava a eclodir!), os livros O Processo e A Colônia Penal. Julgamentos arbitrários, opressão do indivíduo pelo poder burocrático estatal, culpa e vazio em uma realidade absurda são temas dessas obras. Alguém ainda não reconheceu o tom absurdo – e kafkiano! – de nosso tempo?

Já na conjunção de 1946 a 1948, o britânico George Orwell expressou sua sombria visão do controle totalitário estatal no livro 1984. O enredo é ambientado num então futuro (o ano de 1984) em que o governo cerceia e controla todos os indivíduos. Enquanto o Ministério da Verdade manipula dados e reescreve o passado, o líder invisível Grande Irmão (Big Brother) a tudo vigia. O livro virou filme em 1984 – inevitável –, quando Saturno e Plutão se encontravam de novo alinhados. Hoje, há mil olhos eletrônicos sabendo tudo de nós. E a verdade? Pobre verdade...

Em 1985, nesse clima cíclico de distopia, a canadense Margaret Atwood lançou O Conto da Aia, um pesadelo teocrático e obscurantista em que as mulheres são as principais vítimas. E eis que, na conjunção seguinte de Saturno e Plutão – a de agora –, O Conto da Aia virou série de sucesso mundial na televisão, ao espelhar perigos reais e atuais em torno da perda de direitos civis e da liberdade e da ameaça de um fundamentalismo religioso.

Essa breve lista de obras sincrônicas às conjunções de Saturno e Plutão já revela a repetição de temas ligados ao impulso de morte, como uma instância contrária à vida, ao prazer e à liberdade. O cinema também teria muito a ilustrar o efeito dessa energia, mas basta o filme que, neste ano, se tornou a maior bilheteria de todos os tempos, Vingadores: Ultimato. Nele, todos os super-heróis precisam se juntar para combater o arquivilão Thanos em sua sanha de eliminar as criaturas vivas do Universo. Thanos vem de Thanatos, o destruidor da vida na mitologia grega. A psicanálise o opõe a Eros, deus do desejo e do amor.

Assim, nestes tempos de guerras e extremos, de que lado estamos: da vida ou da morte? De quem vive e deixa viver ou de quem castra, censura e destrói? E se não houver uma união de forças pela vida e pelo amor, o que nos aguarda?

Dar um happy-end a essa história depende de nós. Comecemos com mais beijo na boca e menos bate-boca.

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