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Opinião16/08/2019 | 17h27Atualizada em 16/08/2019 | 17h27

Nivaldo Pereira: tempos sombrios

Saturno e Plutão não gozam de boa fama na astrologia

Nivaldo Pereira: tempos sombrios Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Astrologicamente, o que há em comum entre as épocas históricas de eclosão das duas Guerras Mundiais, da ascensão do nazismo, da instauração da Guerra Fria e dos atentados de 11 de setembro? Em todos esses contextos, havia no céu ângulos tensos entre os planetas Saturno e Plutão. É o mesmo tipo de configuração que se repete agora, num ciclo que se iniciou em 2018 e se prolonga até o final de 2020.

Saturno e Plutão não gozam de boa fama na astrologia. Na expressão mais difícil, o primeiro é relacionado a limites e fronteiras, tradição e controle, enquanto o segundo, ao poder oculto e ao terror. Agora, Saturno e Plutão se encontram alinhados em Capricórnio, signo do governo e do sistema econômico. Basta olhar o noticiário atual para perceber que a combinação desses princípios simbólicos evoca plutocracias e forças de repressão, conservadorismo, impulsos totalitários e reacionários, entre crises econômicas e o retorno de posturas morais radicais.

Saturno materializa e empodera ocultos ressentimentos sociais plutonianos; Plutão potencializa a rigidez fundamentalista saturnina. São tempos sombrios, que confrontam conquistas humanitárias pautadas na liberdade, mas são ciclos cósmicos, que também têm um final e convidam a um aprendizado coletivo. Então, sem desespero: tudo isso aí vai passar. Pois o novo sempre vem, em ondas, como o mar.

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A correlação entre as posições dos planetas lentos, associados ao coletivo – de Júpiter a Plutão –, e fatos históricos marcantes foi tema de um extenso estudo realizado pelo psicólogo e filósofo suíço Richard Tarnas, publicado em 2006 no livro Cosmos and Psyche (ainda sem tradução em português, mas disponível em espanhol). Tarnas defende a visão de um cosmos vivo, em que céus e Terra estão numa mesma vibração sincrônica. Os planetas não causam eventos (assim como os ponteiros de um relógio não causam o passar do tempo) e são apenas indicadores de ciclos simbolicamente conectados.

Numa perspectiva histórica, há padrões temáticos, diferentes na manifestação mas semelhantes na essência, que se repetem nas interações celestes entre Saturno e Plutão. Uma mesma onda de controle e restrições apareceu nas conjunções anteriores mais próximas, ocorridas de 1946 a 1948 e de 1981 a 1984. Numa, a Guerra Fria começou, com extrema polarização ideológica; na outra, atingiu seu auge, com o terror atômico e a ameaça comunista dando o tom. Não é de estranhar o retorno de uma paranoica “ameaça comunista” na conjunção atual, mesmo que isso hoje soe absurdo.

Ainda no começo da década de 1980, sob os governos conservadores de Ronald Reagan e Margareth Thatcher, as conquistas sociais dos anos 1960 – quando o libertário Urano esteve ligado a Plutão – sofreram um duro golpe: com o surgimento da Aids, restrições sociais e legais (Saturno) se voltaram contra a sexualidade (Plutão). Tarnas caracteriza tais épocas como de surgimento de movimentos dedicados a reafirmar uma maioria moral e a recuperar os valores tradicionais da família, nas ideias de pensadores conservadores. Ou seja, esse negócio de “família acima de tudo” não é novidade.

Nesse clima de padronização imposta, surge a demonização do outro, o diferente, visto como um mal a ser combatido. Juízos cegos condenam e perseguem em nome da moral hipócrita. Por sinal, Saturno e Plutão estavam em tenso contato entre os anos 28 e 31 d.C., em que houve o julgamento e a crucificação de Jesus. Certamente, se Jesus voltasse agora, com seu discurso de amor e tolerância, seria outra vez condenado pelos cegos de luz.

Como essa perigosa conjunção segue até 2020, convém não alimentar ódios e venenos. Segundo Tarnas, esses períodos pressionam os indivíduos e as sociedades a abandonar uma forma de vida e adotar uma nova, mesmo que esta ainda não esteja visível. Então, se crescer a escuridão, devemos reagir com a luz interior da razão. Devemos crescer em amor, respeito e arte.

Somos feitos para esse tempo. Como diz o plutônico poeta Drummond: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”. E ele aconselha: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

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