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Opinião09/08/2019 | 18h50Atualizada em 09/08/2019 | 18h50

Nivaldo Pereira: a imagem do pai

Vendas à parte, o Dia dos Pais celebrado no signo de Leão termina fazendo muito sentido

Nivaldo Pereira: a imagem do pai Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

O Brasil celebra o Dia dos Pais em agosto, seguindo um calendário comercial que reafirma convenções sobre a imagem cultural dos genitores. Vitrines exibem clássicos presentes como camisas sociais, gravatas, sapatos, barbeadores, livros e as eternas poltronas do papai. Vendas à parte, o Dia dos Pais celebrado no signo de Leão termina fazendo muito sentido. Para além da própria identidade, a criação leonina encontra sua expressão máxima na geração de outro ser – um filho! Por isso, Leão também tem a ver com a relação entre os filhos e a imagem paterna, já que o Sol, no mapa astrológico, costuma colorir a figura masculina interna.

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No signo anterior, Câncer, a feminina Lua convidava a vínculos e pertencimentos, conectando-nos com o passado e com a proteção materna. Tudo estaria tranquilo dentro de uma concha protetora, perto da saia da mãe. Já em Leão, reino do Sol, nosso ser potencial é empurrado para fora, desafiado a revelar a luz do próprio eu. Essa luz é centelha do pai solar, como um impulso para projetar-se no mundo. Ser rei e senhor da própria história: eis um caminho mítico a seguir, nos mesmos trilhos, ou não, do pai.

O que podemos ser como pessoas únicas no mundo – tarefa leonina – vai depender de nossa relação com esse pai interno. E há muitas possibilidades de pai em nossa formação: amoroso ou frio, incentivador ou tirano, protetor ou negligente, liberal ou autoritário, presente ou ausente. Assim, nossa jornada heroica de afirmação pressupõe um encontro ou um confronto com a imagem paterna. Como Leão também é arte, vamos examinar algumas obras que traduzem esse embate.

Publicada postumamente, Carta ao Pai, de Franz Kafka, foi literalmente uma longa carta, nunca enviada, em que o canceriano escritor destila mágoas e ressentimentos em relação à figura opressiva do pai. Essa opressão marcará presença em seus livros, e o próprio Kafka a admite ao pai: “Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito”. Esse trecho é revelador do quanto a afirmação individual no mundo pode estar conectada com a dificuldade de assimilar o legado paterno.

Na música Sapato 36, Raul Seixas expõe um conflito de gerações típico da adolescência: “Eu calço é 37 / Meu pai me dá 36 / Dói, mas no dia seguinte / Aperto o meu pé outra vez”. É a comum percepção de não caber na fôrma imposta pelo pai. Daí surge a confrontação: “Por que cargas d’águas / Você acha que tem o direito / De afogar tudo aquilo que eu / Sinto em meu peito?” E vem a inevitável ruptura de caminhos: “Pai, já tô indo-me embora / Eu quero partir sem brigar / Já escolhi meu sapato / Que não vai mais me apertar.” Eis um caminho de identidade que precisou rebelar-se contra o universo do pai.

A pungente canção Pai, de Fábio Jr, fala de um resgate da figura paterna, depois de prováveis afastamentos. Diz o personagem, já adulto: “Tô tentando, vivendo, pedindo / Com loucura pra você renascer”. E dispõe-se a quebrar velhas barreiras: “Só não quero e não vou ficar mudo / Pra falar de amor com você”. Aí a imagem paterna é amorosamente reconfigurada: “Pai / Eu cresci e não houve outro jeito / Quero só recostar no teu peito / Pra pedir pra você ir lá em casa / E brincar de vovô com meu filho / No tapete da sala de estar.” No final, vem a integração do pai no próprio futuro: “Você faz parte desse caminho / Que hoje eu sigo em paz”.

Ainda na canção popular, uma das mais belas explorações desse tema está em Pais e Filhos, letra de Renato Russo. Os eventuais conflitos geracionais são resolvidos pela constatação da imperfeita humanidade de ambas as partes: “Você me diz que seus pais não lhe entendem / Mas você não entende seus pais / Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você”. Diferenças e conflitos à parte, convém cultivar o amor de Leão. Afinal, como diz a canção: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã / Porque se você parar pra pensar / Na verdade não há”.

Então, que possa o perdão colorir de puro amor o pai dentro de cada um.

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