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Progressistas #223/08/2019 | 13h00Atualizada em 23/08/2019 | 17h55

"Não tenho medo do Bolsonaro, tenho medo do que ele desperta nas pessoas", revela advogada de Caxias

Mônica Montanari diz quem uma das principais lutas da esquerda é contra todas as formas de violências

"Não tenho medo do Bolsonaro, tenho medo do que ele desperta nas pessoas", revela advogada de Caxias Antonio Valiente/Agencia RBS
Mônica Montanari diz quem uma das principais lutas da esquerda é contra todas as formas de violências Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

No Almanaque do último final de semana (17 e 18 de agosto) foi abordado "Quem são e o que pensam os conservadores caxienses". Nesta edição, será revelado o pensamento de quem tem uma visão mais progressista e à esquerda.

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Apesar do atual contexto político e social e como força para seguir em frente, a escritora e advogada Mônica Montanari cita a canção Maria Maria, cantada por Milton Nascimento.

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Essa força, raça e gana é imprescindível, diz ela, para seguir lutando contra a violência que as mulheres têm sofrido.

— Tem ocorrido um aumento assustador do número de feminicídios, principalmente depois da autorização para compra de armas. Na noite em que isso veio à tona, cinco mulheres foram assassinadas no Brasil — aponta Mônica, 53 anos.

Segundo a advogada, é preciso que a sociedade entenda que a mulher enfrenta diversas violências, sobretudo através da mão do Estado, por isso é assustadora para ela a ascensão da direita no Brasil.

— Há uma demanda grande para o fim da violência contra as mulheres. Desde a violência do Estado que impõe cesariana quando as mulheres querem fazer parto normal. Ou a violência policial, quando a vítima de estupro tem de relatar o caso em uma sala cheia de pessoas. Tem ainda a  violência patriarcal, quando o empresário assedia a funcionária. E, a violência doméstica, quando o homem se acha dono da mulher, ou dos pais e padrastos contra as meninas, porque as enxergam como objeto do seu desejo. E lembrar, ainda, que as mulheres negras são as mais atingidas pela violência — relata.

Leia, a seguir, a opinião de Mônica que defende a visão mais à esquerda, como sendo a mais coerente para um mundo mais justo e melhor. 

BOLSONARO
— Eu não tenho medo do Bolsonaro, tenho medo do que o Bolsonaro desperta nas pessoas. Tenho medo em como ele legitima algumas questões que já estavam superadas, quando fala que a mulher é tão feia que nem merece ser estuprada. Ou quando ele diz que lugar de mulher é em casa, e que as mulheres do nordeste são estupradas porque não usam calcinha. De onde saiu isso? Como tem gente que ainda reforça esse discurso? O que me assusta é o que o Bolsonaro desperta nas pessoas.

FEMINISMO
— Primeiro que ninguém converte ninguém, porque feminismo não é religião. O feminismo luta por igualdade entre homens e mulheres. Agora, uma mulher como a Nadja (Nadja Rippel, que declarou na reportagem do Pioneiro, que "convertia femininistas") não estaria com esse espaço de empoderamento, se não tivessem outras mulheres antes que lutaram para que ela tivesse essa liberdade.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL (19/08/2019)Mônica Montanari, escritora, advogada, nascida em Antônio Prado, identificada com o pensamento progressista, de esquerda, e ativista do movimento feminista.Case da reportagem de comportamento do Almanaque sobre o pensamento progressista, mais à esquerda da margem. (Antonio Valiente/Agência RBS)
Trecho de poema de Mário Quintana, é mais do que decoração, é convicção para Mônica Montanari, a respeito do atual período político do BrasilFoto: Antonio Valiente / Agencia RBS

ABSOLUTISMO
— O nosso grande medo é que em um estado absolutista, como esse que tem se apresentado, não teremos mais liberdade.

RELACIONAMENTOS HOMOAFETIVOS
— De onde surgiu tanta raiva por casamentos homoafetivos ou adoção de crianças por casais homoafetivos? Se tu não tem problema com a  homossexualidade é só não se relacionar com a pessoa do mesmo sexo. Por que tanta raiva?

ABORTO
—  A questão do aborto é um tema delicado, e que poucos conseguem se manifestar com clareza. Pra mim, o aborto é questão de política de saúde pública. As mulheres fazem aborto no Brasil. Não deixam de fazer porque é proibido. Uma entre três mulheres que faz aborto clandestino acaba sendo internada no hospital, por algum problema. A maioria acaba tendo problemas de depressão ou ficando estéril. Então para quem tem um pensamento liberal, coloca isso na ponta do lápis. Quanto custa o atendimento dessas mulheres? Vamos descriminalizar para que tenham acesso, sem responder criminalmente por isso.

DESCRIMINALIZAÇÃO
— Os conservadores não querem abordar gênero na escola, imagina eu, querendo descriminalizar aborto e maconha! Vou ser trucidada. São parâmetros muito diferentes de discussão.

FASCISMO
—  Se pegarmos o conceito de fascismo vamos ver que se encaixa bem nessa tríade Deus, pátria e família.

MILITARES NAS ESCOLAS
— Retiram sociologia e filosofia, que são disciplinas para pensar, e colocam militares nas escolas para ensinar as crianças a obedecer. Algo como: "Não questione, siga em frente, não olhe para os lados, vá para o matadouro e não olhe para trás, para descobrir que haviam um outro caminho para seguir".

MEDO
Convivemos até hoje com pessoas que foram perseguidas e presas, que tiveram seus diretos tolhidos integralmente. Apesar da negativa de que a Ditadura nem existiu. Quem fez política durante todo esse tempo nunca deixou de ter medo disso voltar.

STATUS QUO
A partir do momento em que esse capitalismo foi questionado no Brasil, e só questionado, não foi retirado, a elite ficou com medo. Eles pensavam: "Por que essa classe pobre está emergindo e tirando o meu espaço?". Acho que foi isso que gerou esse grande confronto de blocos. É feio assumir: "Quero que o pobre continue sendo pobre". Mas sabemos que em um mundo capitalista o rico só vai existir se o pobre existir. Então, é preciso manter esse status quo.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL (19/08/2019)Mônica Montanari, escritora, advogada, nascida em Antônio Prado, identificada com o pensamento progressista, de esquerda, e ativista do movimento feminista.Case da reportagem de comportamento do Almanaque sobre o pensamento progressista, mais à esquerda da margem. (Antonio Valiente/Agência RBS)
Mônica, com uma obra do artista plástico e ilustrador Fredy Varela, que retrata a pintora Frida Kahlo, que se tornou ícone feministaFoto: Antonio Valiente / Agencia RBS

VIOLÊNCIA
— Só existe violência onde há desigualdade. Em lugar igualitário não tem violência. Então, há interesse de que a desigualdade se mantenha para que exista o subjugado.

MAIORIA
— A maioria da população não votou no Bolsonaro. Entre os que se isentaram e os que votaram no outro candidato, o Bolsonaro fez 35% do total. Qual é a representatividade? No regime democrático de direito e representativo, ele teve maioria. Mas ele fala a voz de quem? Ele fala a voz de alguns dos indivíduos e não da totalidade da nação.

REPRESENTATIVIDADE
— Será que quando as pessoas se dão conta do que significa liberar o porte de arma, as pessoas realmente se sentem representadas?

REDES SOCIAIS
Hoje, a minha rede social é uma bolha, não tenho lá pessoas que pensam diferente de mim. Talvez esse seja um grande equívoco, porque tu não sabes muito bem o que está acontecendo em outras esferas. Porque todo ponto tem seu contraponto. E a gente acaba não ouvindo o que o outro tem a dizer. Mas as revoluções se darão também pelas mídias sociais.

POLÍTICA
Eu sempre fiz política. As pessoas têm de parar de dizer que não fazem política. Porque nós fazemos política no dia a dia. Quando nós escolhemos o mercado em que vamos comprar, estamos fazendo política. Ou se vou usar transporte coletivo, um carro ou uma bicicleta, tudo isso é política.

LÍDER
— A primeira vez que eu ouvi o Luiz Inácio Lula da Silva falar foi em uma greve do ABC, eu tinha uns 14 anos. O discurso tinha intensidade e paixão, eu lembro que parei para o assistir pela televisão e chorei. De alguma forma o discurso dele tinha aproximação da massa, que era no que eu acreditava.

 Brazilian ex-president (2003-2011) Luiz Inacio Lula da Silva waves to supporters after  attending a Catholic Mass in memory of his late wife Marisa Leticia, at the metalworkers union building in Sao Bernardo do Campo, in metropolitan Sao Paulo, Brazil, on April 7, 2018.Brazils election frontrunner and controversial leftist icon said Saturday that he will comply with an arrest warrant to start a 12-year sentence for corruption. I will comply with their warrant, he told a crowd of supporters / AFP PHOTO / NELSON ALMEIDAEditoria: WARLocal: São Bernardo do CampoIndexador: NELSON ALMEIDASecao: crisisFonte: AFPFotógrafo: STF
"O Lula é um preso político", afirma a advogada Mônica MontanariFoto: NELSON ALMEIDA / AFP

PRISÃO DO LULA
— O Lula é um preso político. Do ponto de vista jurídico, na condição de advogada, a prisão dele é ilegal. Porque não tiveram provas suficientes.

COMUNISMO
— Meu Deus, nasci em 1966, quando é que teve comunismo no Brasil? Sempre vivemos em um mundo capitalista. Aliás, sofri horrores porque não consigo muito bem me enquadrar. Mas que comunismo é esse que o Bolsonaro fala?

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