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Patrimônio02/08/2019 | 16h36Atualizada em 05/08/2019 | 16h09

Enquanto Caxias patina com a Maesa, Flores da Cunha e Canela dão exemplo na ocupação de prédios históricos

Restaurados, Casarão dos Veronese e Estação Campos de Canella atraem centenas de visitantes

Enquanto Caxias patina com a Maesa, Flores da Cunha e Canela dão exemplo na ocupação de prédios históricos Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

3 de julho de 2014. O então governador Tarso Genro assina o projeto de lei que prevê a doação da antiga Metalúrgica Abramo Eberle S.A. (Maesa) ao município de Caxias do Sul. A solenidade, realizada em um dos prédios do complexo inaugurado em 1948, foi acompanhada por cerca de 300 pessoas, entre lideranças políticas, ex-funcionários e representantes da sociedade civil. Iniciava ali uma novela que já se arrasta há 1.857 dias – e ainda não tem previsão para terminar.

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Os capítulos mais recentes vieram à tona nesta semana, com determinação judicial para que a Fundação Metalcorte desocupe imediatamente o prédio histórico e aprovação, pela Câmara de Vereadores, de um pedido de informações sobre as medidas que serão adotadas pela prefeitura para preservar e ocupar o local.

Ideias não faltam. Nos últimos anos, falou-se em mercado público, museu da metalurgia, multipalco para apresentações de teatro e dança, sala de cinema, biblioteca, galeria de arte, espaço gastronômico com bares e restaurantes, auditório para convenções, feira de artesanato e estrutura para abrigar órgãos públicos.

Afinal, o espaço é de grandes proporções: são 53 mil metros quadrados. O complexo compreende o quarteirão entre as ruas Plácido de Castro, Dom José Baréa, Pedro Tomasi e Treze de Maio, e ainda dispõe de área verde, pracinha, lago, ruelas internas e pavilhões de um e dois pavimentos. Para efeitos de comparação, o shopping Iguatemi possui cerca de 70 mil metros quadrados de área construída.

No entanto, pouco se avançou em cinco anos. Até o momento, a Maesa recebeu apenas o Departamento de Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural e a central de monitoramento da Guarda Municipal. Ainda não há um cronograma concreto dos próximos passos, tampouco foi elaborado projeto para restauração dos edifícios idealizados por Silvio Toigo e Romano Lunardi.

Enquanto Caxias do Sul patina, outras cidades gaúchas servem de exemplo na utilização de prédios históricos. São os casos de Flores da Cunha e Canela, que recentemente entregaram à comunidade os projetos Casarão dos Veronese e Estação Campos de Canella.

Mas não é preciso pegar a estrada para encontrar bons exemplos. O Centro de Cultura Ordovás nos mostra que é possível trilhar um caminho de união de esforços para a preservação do patrimônio.

É preciso, claro, fazer uma ressalva: os três espaços, somados, atingem apenas 20% da área oferecida pela Maesa – mais um motivo para compreendermos a importância daquele patrimônio. Nas páginas que seguem, contamos um pouco mais dessas histórias – e também o que esses espaços oferecem aos visitantes.

OPINIÕES
O Estado não tem interesse e não vai assumir a Maesa. A iniciativa tem de partir do município de Caxias. A gente tem de conseguir sensibilizar pessoas que possam orquestrar ações, com apoio do Iphae (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul), para que se consiga contornar esta inércia que parece existir. Beatriz Araujo, secretária estadual da Cultura, em entrevista ao Pioneiro, segunda-feira, na CIC.

A ocupação da Maesa é um desafio administrativo? Sim, mas é um desafio que, para um bom gestor, poderia ser encarado como uma alternativa para deixar uma marca positiva da administração. Claro que não se pode resolver tudo em quatro anos, mas é preciso dar os primeiros passos. A gente teme que esse descaso traga perdas para toda a comunidade. Carlinhos Santos, integrante do Coletivo Abrace a Maesa.

Uma reforma lá dentro não é difícil de fazer, por tratar-se de um patrimônio tombado. Existem linhas de financiamento exclusivas para cultura e turismo, em nível federal, para que essas ações sejam realizadas. O que precisa, de fato, é ir atrás. A Maesa é um espaço de interesse para toda a região. Rubia Frizzo, secretária municipal da Cultura de 2013 a 2016.

É o poder público quem tem a obrigação de fazer todos os esforços possíveis para que a Maesa se torne uma realidade. Não estou acompanhando de perto, não sei o que tem sido feito, mas todo mundo iria entender se a ocupação fosse aos poucos. Nenhum governo conseguiria finalizar tudo em quatro anos, mas é preciso começar, ir planejando, unindo forças. Tadiane Tronca, secretária municipal da Cultura de 1997 a 2003.

A equipe do Almanaque solicitou entrevista com o atual secretário municipal da Cultura, Joelmir da Silva Neto. Os questionamentos, que precisaram ser antecipados por e-mail, foram respondidos com o link de uma matéria postada no portal da prefeitura em 28 de agosto de 2018. No material, a administração diz que os próximos passos na ocupação serão dados somente após o cessamento total das atividades fabris e diagnóstico das edificações. 

ESTAÇÃO CAMPOS DE CANELLA

Estação Campos de Canella
Foto: Rafael Cavalli / Divulgação

Um dos bons exemplos de ocupação de prédios históricos vem da Região das Hortênsias. Em funcionamento parcial desde janeiro, a Estação Campos de Canella devolveu ao centro da cidade a antiga Estação Férrea, desativada há mais de 40 anos e que agora abriga um complexo turístico e gastronômico.

Nestes primeiros meses de funcionamento, já são seis estabelecimentos à disposição dos visitantes, entre restaurante e fiambreria, loja de souvenires e de chocolates artesanais. Quando finalizado, em julho de 2020, o projeto de 5,9 mil metros quadrados abrigará mais de 40 operações comerciais, entre restaurantes, lojas, bares e quiosques – ingredientes para movimentar ainda mais a região que mais recebe turistas no Rio Grande do Sul.

A ideia de revitalizar a antiga Estação Férrea surgiu em 2012. Como o valor estimado para as obras girava em torno de R$ 10 milhões, a alternativa encontrada pelo poder público foi a concessão do espaço à iniciativa privada por 20 anos, em modelo semelhante ao utilizado em algumas arenas da Copa do Mundo de 2014.

Funciona da seguinte maneira: a empresa responsável pelas obras, a Incorporadora Novalternativa, se compromete a implantar a infraestrutura prevista no edital. A contrapartida é a possibilidade de exploração comercial por meio da locação dos imóveis para terceiros (como lojas e restaurantes). Passados os 20 anos, a empresa concessionária pode renovar o contrato mediante autorização legislativa ou devolver o patrimônio ao poder público.

— O município de Canela não dispunha de recursos para a revitalização do espaço, por isso recorremos à iniciativa privada, que agora pode ter um retorno sobre o investimento. O que o município ganha com isso? A geração de empregos para a comunidade local e os impostos — afirma Vilmar Santos, que até janeiro ocupava a secretaria de Governo de Canela, responsável pelo contato mais próximo com o projeto.

Em pouco tempo, o esforço já trouxe recompensas. Com a operação parcial de seis marcas e a continuidade das obras para a conclusão do projeto, a Estação Campos de Canella mantém cerca de 300 empregos diretos. Mas o maior benefício, segundo Santos, foi a transformação de uma área central que, até 2017, estava abandonada.

— O retorno mais visível é a transformação daquele ambiente. Até pouco tempo, tínhamos ali uma estrutura depredada, usada para drogadição e prostituição, sem retorno algum para o município. Hoje, são centenas de pessoas que se concentram no largo para desfrutar as opções culturais. A própria autoestima da cidade acabou melhorando — avalia Santos, hoje à frente da Secretaria da Saúde.

Nos próximos meses, a prefeitura de Canela pretende lançar outro edital de concessão para restauro: dessa vez, da Casa de Pedra, localizada em área anexa à Estação Férrea.

CASARÃO DOS VERONESE

 O Casarão Veronese é um centro cultural em Otávio Rocha, distrito de Flores da Cunha. O prédio, de 1898, pertenceu ao casal de colonos italianos Felice e Domênica Veronese, e foi entregue restaurado à população em dezembro de 2017.
Foto: Ricardo Chaves / Arquivo Pessoal

Sala para exposições artísticas, espaço para atividades culturais, auditório, cozinha para oficinas gastronômicas, orquidário e bistrô para degustação de produtos típicos da região. Essa é a estrutura oferecida pelo Casarão dos Veronese, Centro Cultural localizado no distrito de Otávio Rocha, no interior de Flores da Cunha.

A edificação de dois pavimentos, construída em 1898 pelo agricultor Felice Veronese, é uma legítima representante da arquitetura colonial italiana na Serra. Paredes em pedra basalto, argamassa em barro, acabamento em tijolos nas aberturas e utilização de tábuas de araucária em pisos, portas e janelas são elementos que retratam as dificuldades enfrentadas por aqueles que cruzaram o Atlântico em busca de uma nova vida.

Quem visita o charmoso Casarão nos dias de hoje talvez não imagine, mas o processo de restauração se prolongou por mais de três décadas. Tudo começou com o tombamento do imóvel pelo governo do Estado, em novembro de 1986.

Dali em diante, foram anos de mobilização comunitária e debates sobre a melhor forma de ocupar o espaço, à época abandonado e com riscos estruturais.

— A partir do tombamento, foi feito um estudo em parceria com professores da Unisinos, da UFRGS e da UCS para atestar o valor histórico do local. O desenrolar se deu com muita mobilização e várias discussões sobre a futura utilização — relata a arquiteta Sayonara Guaresi, responsável pela fiscalização das obras, entregues à comunidade em dezembro de 2017.

A viabilização econômica do restauro só foi possível graças à Lei Estadual de Incentivo à Cultura (LIC), que captou patrocínio das empresas Florense e Keko na casa dos R$ 3 milhões. A prefeitura de Flores da Cunha também ajudou: além do aporte de R$ 450 mil, o poder público cedeu servidores para acompanhar o andamento dos trabalhos.

— As parcerias com a iniciativa privada são necessárias, até porque os recursos públicos são limitados e esses mecanismos de incentivo à cultura estão aí para serem usados. O restauro do Casarão dos Veronese nos trouxe a valorização da história e um legado de educação patrimonial para as futuras gerações, com visitas guiadas de turmas escolares ao nosso Centro de Cultura — afirma Ana Paula Zamboni Weber, secretária municipal de Educação, Cultura e Desporto de Flores da Cunha.

Mais um detalhe importante: o projeto arquitetônico foi assinado por Edegar Bittencourt da Luz, responsável pelo restauro do Mercado Público de Porto Alegre, atingido por incêndio em julho de 2013 — uma autoridade quando o assunto é preservação do patrimônio histórico.

CENTRO DE CULTURA ORDOVÁS

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL (21/01/2019)Fachada do Centro de Cultura Ordovás em Caxias do Sul. (Antonio Valiente/Agência RBS)
Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Não é preciso sair de Caxias do Sul para encontrar bons exemplos de ocupação do patrimônio histórico. O Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho é prova disso. Entregue à comunidade em outubro de 2001, localizado em um dos prédios da antiga Vinícola Luiz Antunes & Cia, o complexo se tornou ponto de referência para a classe artística da região, com milhares de visitantes anualmente.

Com quase 3,9 mil metros quadrados de área construída, o Centro de Cultura oferece sala de cinema, galeria de arte, sala de exposições, café, sala de teatro, memorial, salão de artes e estrutura para ensaios e realização de oficinas. O Ordovás ainda abriga a parte administrativa de diversos órgãos da Secretaria da Cultura, como as Unidades de Artes Visuais, Cinema e Vídeo, Escola Preparatória e Cia. Municipal de Dança, além das cerca de duas mil peças do Acervo Municipal de Artes Plásticas (Amarp).

Mas o caminho para transformar a edificação dos anos 1930 em Centro Cultural não foi fácil — e demandou união de esforços do poder público e de setores da sociedade civil. Com a falência da Vinícola Luiz Antunes & Cia, no início da década de 1980, os imóveis foram transferidos à Fazenda Nacional, permanecendo assim até dezembro de 1988, quando foram cedidos ao município de Caxias com a prerrogativa de que recebessem equipamentos de interesse comunitário.

Ainda no final da década de 1980, boa parte da área foi destinada à construção do novo Fórum, sob responsabilidade do governo do Estado. O prédio localizado ao sul do complexo, que hoje abriga o Ordovás, chegou a ser ocupado por uma empresa até março de 1998, quando a administração municipal moveu ação de reintegração de posse.

Para as reformas, iniciadas no ano seguinte, foram necessários investimentos na casa de R$ 1 milhão, conquistados via Orçamento Participativo, além de R$ 110 mil captados via Lei Estadual de Incentivo à Cultura junto às empresas Marelli, Sultêxtil, Vidroforte e Lojas Arno.

— O Ordovás foi um exemplo muito positivo dessa parceria do poder público com a sociedade. Se o poder público se imbuir de vontade política e trabalhar, consegue fazer as coisas. Claro que é um desafio enorme, mas é preciso ter uma visão bem clara do que se quer. Foi assim que conseguimos — recorda Tadiane Tronca, secretária da Cultura no governo Pepe Vargas, de 1997 a 2003.

Mantendo um calendário de atividades artísticas em música, dança, cinema, teatro e artes visuais, o Centro de Cultura Ordovás recebeu mais de 20 mil visitantes em 2018.

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