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Opinião08/08/2019 | 07h00Atualizada em 08/08/2019 | 07h00

André Costantin: um terço do fim

Pois, é com muita tristeza que eu vejo, agora, que estamos à beira daquele precipício cogitado na juventude

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Filho de camponeses que se tornaram cidadãos suburbanos, cresci vendo traços da violência e da pobreza nas ruas de Caxias. Se eu fosse pobre, tivesse nascido algumas centenas de metros mais à periferia, no Buraco Quente ou no Catiguá de então, não seriam apenas sinais, mas talvez a própria miséria e a morte a atravessar a minha carne jovem. Vivi em fronteiras sociais.

Diante da realidade, evocada por um mendigo ou por um cadáver caído nos trilhos das redondezas do Kaiser, eu me perguntava se, um dia, o meu país poderia descambar para um quadro de caos e guerra social. Vivi a ilusão Brasil, estudei, trabalhei, amei, criei laços, construí memórias e casas. Mas aquela pergunta sempre voltava, sorrateira.

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Pois, é com muita tristeza que eu vejo, agora, que estamos à beira daquele precipício cogitado na juventude. Se já não saltamos nele. As pessoas estão cegas, a sociedade brasileira está cega, surda, muda, castrada. O Brasil está refém do contingente de um terço de brasileiros que pensam e gritam igual a esta triste e ignóbil figura, ressentida e rasa, que vai se refestelando no trono presidencial, todo dia com alguma nova mentira. Em sua diarreia mental, sempre há uma agressão à natureza, às identidades, à liberdade.

Este um terço que foi tragado pelos smartphones e que encontrou o seu espelho no presidente messiânico só pode viver e ser feliz no abismo social. Outro um terço do Brasil está quieto, difuso, vendo tudo em silêncio, sacando tardiamente que foi abduzido pelo grosnar do patinho feio e ajudou a eleger um meme presidencial. Resta um terço como incógnita: uma parte, poltronizada em suas casas e repartições; outra, uma legião de órfãos das ilusões brasileiras, tanto à esquerda quanto à direita, já nem importa.

Com todas as suas mazelas, o Brasil era ainda uma ideia de futuro – eis talvez a grande ilusão –, era o lugar no mundo onde poderia existir um homem feliz, como escreveu o poeta russo há quase um século. Foi samba e bossa-nova, futebol-arte; seria um possível acervo ambiental do planeta. A música virou 90% batidão sertanejo, o futebol é o que está aí – com a camisa canarinho sequestrada pelos amantes da ditadura. A Amazônia tem seu anticristo entronado em Brasília. Resta o carnaval.

“Sílvio Santos vem aí...” – e continua, mais vivo e visto do que nunca. Vivemos uma tragédia estética, precursora do trauma social. Já é pouco crível uma ideia de felicidade. 1/3 batendo palmas, viralizando ressentimentos. É preciso falar – e escrever – também, ou afundar na poltrona.

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