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Opinião22/08/2019 | 07h00Atualizada em 22/08/2019 | 07h00

André Costantin: meramente

Somos seres meramente ilustrativos destas cenas explícitas de vida e fruição

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Atenção! A fotografia logo acima, na moldura desta crônica, é uma imagem meramente ilustrativa. Não é exatamente uma verdade o que a estampa sugere: esse ar seguro, algo entre convicto e profundo, sereno até. Certo brilho do olhar, alguma efervescência ou libido que o papel-jornal ainda consegue sugerir – não, isso não parece encontrar amparo ou espelho na imagem de mim mesmo.

Por isso escrevo esta crônica meramente ilustrativa. Como são as propagandas dos automóveis, dos remédios, de toda a tralha do consumo universal. Eu sou o comprimido da gripe em horário nobre, na voz da artista da novela das oito. Aquele sutil milagre da indústria farmacêutica que promete resolver o teu problema crônico, mas sobre o qual duas linhas de letras microscópicas no rodapé da tevê – em locução alucinada – alertam que também pode te empacotar em uma nefasta embalagem de efeitos colaterais.

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O carro SUV surge na imagem fazendo o diabo no asfalto, na terra, nos riachos. Há pneus com garras ferozes que possibilitam tais façanhas. Os manuais do proprietário, entretanto e tanto prazer, te sugerem, portanto, uma conduta exemplar ao volante, caso contrário não há garantia do produto. Sou eu. É você também, leitor. Somos seres meramente ilustrativos destas cenas explícitas de vida e fruição – a super bike, a casa, a família, o cãozinho, aquela transa, e, logo ali, talvez o amor. Somos o exército das selfies.

De tantos exploradores, os cumes Himalaios viraram um engarrafamento de alpinistas. Os picos mundiais do surf mostrados em looping no canal de esportes radicais têm as ondas poluídas de corpos humanos e câmeras de vídeo. Dá licença, a senha por favor! Um passinho para o lado.

Os moradores do condomínio confabulam e se debatem porque agora desejam não apenas oito, mas os 30 gigabites de conexão anunciados – dos quais o provedor garante a entrega de 40% da banda (uau!), em troca do plano de fidelidade dos seus usuotários. Tudo meramente ilustrativo. Eu, inclusive. Trinta gigas, super Wi-Fi, para viver em bolhas, ser enganado 24 horas por dia e depois eleger os fascistas deste mundo.

Uma máquina gigantesca rosna há meses aqui em São Pelegrino; está agora a dois metros da janela do escritório, perfurando o terreno vizinho, até três pavimentos abaixo da terra. Com esse motor absurdo, giro os meus pesares – ad infinitum. Não mais me reconheço na fotografia. Mas o que sou nesta Amazônia devastada, neste deserto de ideias? O que sou eu nesta pátria ilustrativa que arde em chamas?

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