André Costantin: italianismo - Cultura e Tendência - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Opinião01/08/2019 | 07h00Atualizada em 01/08/2019 | 07h00

André Costantin: italianismo

(De conversas com urubus - IV)

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

– Bom dia!, camaradas. Sabem que, ao contrário da semana passada, nestes dias me escreveu outro leitor, adorando estas conversas que mantenho com vocês dois, meus caros amigos urubus, Urutau e Alfredo. Para ele, essa liberdade de fala nas crônicas remete à infância, ao tempo mágico da vida, quando conversamos com todos os seres. Mas vou dar um tempo na semana que vem...

Urutau: – Também gosto de nossos colóquios.

Leia mais
André Costantin: começo, meio e fim
André Costantin: velas vermelhas

Alfredo: – Eu acho uma viagem certas ideias de vocês, mas me distraio com a linguagem humana, embora rasa que pareça. E hoje, Carlos, o que o senhor tem a contar?

Carlos: – Pois, ontem, passando por São Pelegrino, a caminho do escritório, vi que homens e máquinas mexiam na base daquele antigo monumento de basalto, que insinuava uma bota, reproduzindo o mapa da Itália. Um carro desgovernado tinha quebrado o monolito, tempos atrás. E a coisa foi ficando por terra, no desleixo, como sucede à memória desta cidade.

Urutau: – Sim, notamos isso em alguns sobrevôos urbanos. Não sei se Alfredo lembra, mas uma vez chegamos a pousar naquele monumento alusivo às relações de Brasil e Itália.

Carlos: – A lembrança do monumento quebrado me remeteu à mitologia da Itália perdida, tão forte nas gerações que nos precederam, dada a ancestralidade regional. Meu pai alimentava essa ideia de uma pátria mítica, difusa no passado. Meu avô, nos interiores de Garibaldi, mal falava o português. Por sua vez, era filho de um imigrante desgarrado de além-mar, que somente cartas e sonhos impossíveis recebia no seu penoso exílio da pátria-mãe, que então, em fins do século 14, mal podia se chamar de Itália, de tão fragmentada que era. Tal como estamos nós, hoje, aqui no Brasil.

Alfredo: – Vocês se apegam tanto a essas origens...

Carlos: – É verdade. Resulta que, me dei conta ontem, em cinco minutos de noticiário, que nos tornamos também uma espécie de pátria fugaz, mitológica, de forte sotaque italiano. Até anotei em um caderninho. Do famoso hacker da República , de sobrenome Delgatti, até o ministro inflável, Moro (cognome “Russo”), há um forte italianismo à brasileira. Só das anotações de ontem, de sobrenomes em voga no telejornal: “Dallagnol, Palocci, Lorenzoni, Battisti, Toffoli e por aí vai, até chegar ao máximo da caricatura, Bolsonaro (que na origem remota seria Bolzonaro, com “z”). Claro, os carcamanos são minoria entre Queirozes, Silvas e Cabrais, mas não há como negar sua (nossa) influência nesta outra mega-Itália, imaginária, tardia, tropical.

Leia também
Casa do Caramujo recebe oficinas literárias no segundo semestre 
Mostra "Turning Point" será uma das integrantes da Semana da Fotografia em Caxias
Agenda: crianças de férias? Que tal aproveitar as oficinas criativas do Quindim, em Caxias?

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros