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Opinião29/08/2019 | 07h00Atualizada em 29/08/2019 | 07h00

André Costantin: Adrian Cowell

Conheci Adrian em uma praça de Goiás Velho, na órbita de uma dessas mesinhas de bar patrocinadas por marca de cerveja

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Esta crônica é a sinopse incompleta de um filme que não fiz. Conheci Adrian em uma praça de Goiás Velho, na órbita de uma dessas mesinhas de bar patrocinadas por marca de cerveja. Com sotaque particular, aquele senhor alto, magro, barba grisalha, pediu licença para sentar.

Foi durante um festival de cinema ambiental, em 2008. Eu concorria com a Série Antártida, produzida pelo Núcleo de Programas Especiais da RBSTV. Adrian saia de uma sessão e, sendo ele também um sujeito só, o acaso nos apresentou. Adrian Cowell era o mais inglês possível, embora nascido em uma província da China. Entrou na vida do Brasil ainda jovem, filmando as expedições amazônicas dos grandes sertanistas, entre eles os irmãos Villas Bôas.

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Em 50 anos de andanças, Adrian contatou tribos isoladas, tornou-se amigo de Chico Mendes – projetando-o para o mundo. Visitava a sombra da morte, mais por ameaças de madeireiros do que da grande floresta. Nos anos 80, assinou uma série de repercussão internacional sobre a Amazônia – “A década da destruição”. Mas resistia, sempre, como um entusiasta do Brasil.

Ao saber-me “do sul”, contou um episódio curioso vivido na companhia de José Lutzenberger, quando certa vez “Lutz” gritou para frear o jipe e foi mijar na base de um tipo de árvore, ficando depois por longos minutos em volta, em silêncio, sem ninguém entender nada. “Ele observava a reação das formigas, e dali extraía suas análises sobre aquela terra e o ambiente”.

Conversa alta, Adrian tirou um cantil do bolso interno do casaco e me ofereceu dois dedos de um single malt, que ele sempre buscava na fonte antes de viajar. Era de uma região da Escócia, entrecortada por riachos, onde até as teias das aranhas das destilarias estavam sendo pesquisadas – e compradas – por japoneses. Aquele foi o meu batismo emocional e tardio do uísque.

Entre tantas histórias, perguntei se alguém já tinha narrado a sua aventura existencial no Brasil. Simplesmente, não! Na noite seguinte, tomamos um bom vinho moscato, que eu também levava na bagagem. Nascia ali, entre uísque e moscato, uma amizade e o projeto de um filme sobre Adrian Cowell.

Mas a vida corria veloz ao sul do Brasil, com suas urgências e rotinas. Eu batalhava a ideia do filme, sem recursos ou meios imediatos para tal. Em 2011, um e-mail para Adrian não teve resposta. Ele morria, aos 77 anos, deixando um acervo de cinco toneladas de filmes e registros a caminho de Londres para o Brasil.

À memória de Adrian, ao coração da floresta – um dedo de uísque.

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