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Opinião20/08/2019 | 07h00Atualizada em 20/08/2019 | 07h00

Adriana Antunes: o barulho do outro

Buscar o silêncio é uma forma de encontro com as palavras ainda não ditas

Para escrever a crônica, aquietei-me. Buscar o silêncio é uma forma de encontro com as palavras ainda não ditas. Às vezes parece que para ter silêncio basta não ter música ou alguém falando por perto, mas mesmo num quarto “silencioso”, se ouvem os sons dos carros passando, das buzinas, aviões passando, vento batendo na janela, cachorro latindo. O mundo é barulhento. Sem falar naqueles carros que passam com aquela mesma música, altíssima, que ouvimos vindo de longe e somos obrigados a acompanhar todo seu trajeto até ir embora. Rubem Alves disse, certa vez: “Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. 

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Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira”. O barulho também é uma forma de discurso. Também tem algo a nos dizer, mais de nós mesmos do que de quem o produz. Quando estamos silenciados e em paz, passamos pelos barulhos no entorno, nos afastamos e seguimos sem maiores incômodos. Respiramos fundo e a alegria do outro não nos perturba, mesmo que às vezes seja uma alegria perturbada. Já quando não estamos bem, o tic-tac do relógio é suficiente para que nos irritemos. 

Os barulhos ao nosso redor podem ser um bom medidor de como estamos internamente. Há um livro delicioso que fala sobre antropologia do sexo que diz que podemos medir o quanto ainda amamos o nosso parceiro pelo som que ele produz ao comer os alimentos. Isso é prestar a atenção aos detalhes. Geralmente, no início do relacionamento nem ouvimos se a pessoa mastiga fazendo barulho e estalando a língua, mas depois de um tempo juntos, anos de convívio e algumas decepções, estamos nós lá pedindo para que a pessoa mastigue de boca fechada. Bom, não é bem o som que ela sempre produz ao comer que nos irrita, certo? Aliás, talvez ela siga muito feliz do jeito que sempre foi e não entenda o seu questionamento. 

É porque o problema não está nela, exclusivamente. Até porque podemos ser nós que produzimos os sons que o outro não gosta. Nesses momentos o ideal é que você pare para ouvir de verdade. Aceitar e compreender que os barulhos que nos incomodam apenas funcionam como espelho de nós mesmos é o primeiro passo para não sairmos brigando e magoando a pessoa que tanto amamos (e que aguenta também nossos barulhos) porque tem uma mastigadela exótica. Concordo com Rubem Alves, não precisamos fazer de nossa vida uma sonata única, perfeita e completa. Sejamos menos duros uns com os outros. O mundo que acolhemos dentro de nós mesmos é o mundo que também nos acolhe.

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