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Progressistas #423/08/2019 | 16h00Atualizada em 23/08/2019 | 16h10

"A democracia não está consolidada no Brasil", critica Lilia Schwarcz 

Historiadora e doutora em antropologia acaba de lançar "Sobre o autoritarismo brasileiro", livro que está na lista dos mais vendidos no Brasil

"A democracia não está consolidada no Brasil", critica Lilia Schwarcz  Mathilde Missioneiro/Folhapress
"O mundo está reagindo às crises recessivas com governos populistas, as chamadas "democraduras", ou seja, governos que acham que a questão da democracia se resolve na eleição", observa Lilia Schwarcz. Foto: Mathilde Missioneiro / Folhapress

No Almanaque do último final de semana (17 e 18 de agosto) foi abordado "Quem são e o que pensam os conservadores caxienses". Nesta edição, será revelado o pensamento de quem tem uma visão mais progressista e à esquerda. Uma das entrevistadas é Lilia Schwarcz, historiadora e doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo. Autora de Brasil: Uma Biografia, em parceria com Heloisa Murgel Starling, Lilia recentemente lançou Sobre o autoritarismo brasileiro e já integra a lista dos mais vendidos.

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— Penso que são muitas as agendas da esquerda que incomodam a direita. A primeira questão é a do meio ambiente, que bate de frente com o setor do agronegócio — provoca Lilia.

Na entrevista a seguir, concedida ao Almanaque, Lilia Schwarcz determina a Constituição de 1988 como um marco importante não apenas para a história do Brasil, mas sendo ainda uma grande janela do progressismo brasileiro. No entanto, entende que é preciso a esquerda se reorganizar e buscar diálogo com todos os setores da sociedade para que os direitos conquistados anteriormente sejam mantidos.

Almanaque: Quando foi a gênese de um pensamento à esquerda, progressista, no Brasil, e de que forma aquele período poderia servir para uma renovação da esquerda brasileira hoje?
Lilia Schwarcz:
Temos de nos lembrar dos nossos 30 anos, desde a Constituição de 1988, que se não tivermos uma democracia completa, porque democracia é sempre um projeto inconcluso, tivemos uma democracia plena. Poderíamos ter aprendido com os erros e acertos também. Digo erros, porque o Brasil nunca teve uma linguagem de reparação, eu me refiro tanto à questão militar, como à questão das populações afro-brasileiras. Erro também por não termos entrado em contato com essas populações, que agora, desde as eleições de 2018, provaram que nesse projeto autoritário e mais populista elas se sentem mais incluídas.

Por que o Brasil optou por uma guinada mais à direita para a condução dos rumos da nação? Parte da "culpa" por essa guinada à direita se deve à falha do modelo progressista brasileiro?
São muitos os elementos. Primeiro, é preciso pensar que o mundo está dando essa guinada mais à direita. O mundo está reagindo às crises recessivas com governos populistas, as chamadas "democraduras", ou seja, governos que acham que a questão da democracia se resolve na eleição. E não se resolve, assim, só se resolve no dia a dia. Acho também que parte dessa culpa é a crise em que o Brasil viveu, experimentou e ainda experimenta. Uma crise que faz com que as populações que se sentem prejudicadas culpem aos outros, e cobrem dos novos agentes sociais que entraram na nossa agenda desde 1988, eu me refiro às minorias sociais, as populações de novos rearranjos de gênero, que sejam alvo direto desses setores mais autoritários. Há também uma falha do modelo progressista brasileiro, em que durante 30 anos, PT e PSDB fizeram um consórcio, cujo objetivo era se perpetuar no poder, e deixaram de olhar para outros setores da população que estavam desgostosos com a política realizada.

A reclamação da direita é que as pautas dos governos de esquerda não comunicavam com a "maioria". Mas de fato, que agenda e demandas da esquerda incomodam a direita e por quer isso ocorre?
Penso que são muitas as agendas da esquerda que incomodam a direita. A primeira questão é a do meio ambiente, que bate de frente com o setor do agronegócio. Depois, as políticas de inclusão social pela educação, que foram muitas nesses últimos 30 anos. Me refiro, principalmente às populações afro-brasileiras, as minorias, as populações trans, que se beneficiaram tanto dos projetos de educação, bem como as de cotas, e essa população mais à direita que não aceita essa inserção social de outras populações e, por isso, volta com o argumento exclusivo do mérito, que é relativo em um país que era a décima nação mais desigual do mundo, e hoje é a nona. São pautas que dividem de fato os setores mais progressistas dos setores mais autoritários, à direita. Acho que o nosso único caminho é a escuta de parte a parte e a busca por um diálogo.

Há quem entenda que este atual cenário armamentista, de cerceamento das liberdades de gênero, da perseguição a diferentes setores da sociedade, tem assustado os brasileiros. Faz sentido esse medo? Quais consequências esse discurso podem desencadear?
Quando a Heloisa (Heloisa Murgel Starling, historiadora e cientista política) e eu terminamos a biografia (Brasil: Uma Biografia), na primeira versão, dissemos que o Brasil tinha uma república falha, por conta dos racismos, da misoginia, dos feminicídios, mas que era um país onde a democracia estava consolidada. Acredito que nós erramos, tanto é que a Heloisa e eu escrevemos um novo posfácio, dizendo que a democracia não está consolidada no Brasil e há um perigo muito grande com o enfraquecimentos das instituições e o desequilíbrio dos três poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo). Acho que há um atentado às conquistas e aos direitos que ganhamos nesses 30 anos de democracia.

Na sua visão, qual é o perfil de líderes que a esquerda precisa "investir" ou "gerar" para que se apresente como uma via possível?
É muito difícil apontar qual o perfil, ou qual líder tem esse perfil ideal. Como dizia o Conselheiro Aires, grande personagem de Machado de Assis: "As coisas só são previsíveis quando já aconteceram". Mas acho que precisamos de líderes mais à esquerda, mais progressistas, que defendam uma agenda vinculada a educação, que defendam que os direitos conquistados sejam mantidos, que defendam o fortalecimento institucional e o pacto constitucional, defendam política de inclusão das populações afro-brasileiras. Segundo o último dado do IBGE, a população afro-brasileira representa 55% dos brasileiros. Precisamos de líderes à esquerda que defendam política que inclua as populações LGBTQ, e principalmente, precisamos de líderes que saibam escutar. Se quisermos ser ouvidos, precisamos saber escutar.

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