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Opinião12/07/2019 | 16h13Atualizada em 12/07/2019 | 17h28

Tríssia Ordovás Sartori: Somos o que deixamos

O que garante nossa permanência são os sentimentos despertados numa interação aleatória ou provocada

Tríssia Ordovás Sartori: Somos o que deixamos Fábio Panone/
Foto: Fábio Panone
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Nunca li o currículo da minha profe da primeira série, Rosângela, mas passados 32 anos desde que me despedi das aulas dela, ainda lembro com perfeição da história do Felipe e da Simone, personagens inquietos que permearam todo o processo de alfabetização de forma lúdica. Penso na primeira profe e só tenho boas recordações. Também lembro da falta que senti da profe Sílvia Regina, na segunda série, quando ela foi embora e em como pude dizer isso a ela depois de reencontrá-la anos depois. 

Lembro da determinação da Roseli, a maior parceira das gincanas cujos QGs eram na casa dos meus avós maternos e como gosto de saber que ela se mantém incrível em sala de aula, encantando estudantes da mesma forma que fez comigo. E lembro do professor Leonam, o mais lendário dos professores da Famecos, e suas leis, aprendizados e afetos. E lembro da Cleodes em sala de aula, não como uma referência em pesquisas sobre imigração, mas como uma pessoa adorável e com uma retórica impecável, que cantava e declamava poesias com a mesma naturalidade que sorria.

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Lembro de fazer grostoli nas manhãs de domingo com a vó Zaíra, das sapecadas de pinhão com o vô Henrique, das tiradas sempre bem-humoradas e das mãos macias da vó Reny. Das galinhas engraçadas que desenhava com a tata. Lembro de declarações de alguns entrevistados, como a centenária dona Itália, que não queria mais viver tanto porque tinha perdido quase todo mundo que gostava, ou seu Angelin, que declarou ter percebido, durante o caminho de Santiago, que nós temos dentro de nós tudo o que precisamos, e do Zé do Rio, que são os vivos do morto que o fazem viver. Da tia Corina, que não gostava de envelhecer mas considerava a melhor entre as duas opções que dispunha. Do abraço e generosidade de dona Isolina e de nosso encontro provocado. 

Ao pensar nessas pessoas, recebi um monte de boas energias, a partir das lembranças lindas que tenho de cada uma delas, sejam de um breve encontro, uma conversa casual ou a convivência de uma vida. Aliás, lembrei delas por causa da emoção que me causavam: estão presentes, mesmo que nem estejam mais por aqui. 

Não são nossos cursos, prêmios, nem o nosso currículo completo que nos credenciam: o que garante nossa permanência são os sentimentos despertados numa interação – aleatória ou provocada. Esse sim é um legado que vale a pena se orgulhar: uma passagem leve e afetuosa, capaz de melhorar o dia ou a vida de alguém.

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