Gilmar Marcílio: o que ignoro - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião19/07/2019 | 07h00Atualizada em 19/07/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: o que ignoro

Que sei eu? A resposta esbarra na minha precária condição de aprendiz.

Acessar o Google não me torna mais culto, mas levemente informado. Assistir a vídeos que tentam sintetizar, em alguns minutos, complexos sistemas de filosofia, não me autorizam a traduzir o pensamento de quem foi muito maior do que eu. Ouvir trechos de ópera ou fragmentos de sinfonias não me faz ser um expert em música clássica. O mesmo vale para qualquer área do conhecimento: para nos familiarizarmos, precisamos de uma vida inteira de estudos. Porém, o que encontramos hoje são pessoas que neutralizam sua ignorância com meia dúzia de frases de efeito. Especialistas em nada. Tenho resistido à ideia de que sei muita coisa. A curiosidade que alimentou meu espírito desde cedo faz com que aprecie investigar o que move as ações, a variedade dos costumes, por que o mal parece ser uma inclinação mais natural do que o bem. E ao me aprofundar nas causas, mais aumenta o abismo e fica evidente o quanto desconheço. Raspo apenas a primeira camada. O que retenho não dá conta da complexidade que envolve nosso pensamento.

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Preciso ser humilde e reconhecer que a tarefa de mapear minimamente a trajetória de nossa raça é complexa demais e não se esgota, apesar do meu empenho. Por isso, como disse o grande Voltaire, “É dever de um homem ter preferências, mas não exclusões.” Que sei eu?, pergunto-me incessantemente, e cada tentativa de resposta esbarra na minha precária condição de aprendiz. Não nos foi dado conhecer as razões que geram a consciência e muito menos a certeza de que há um propósito para a existência. Tateamos em busca de um sentido, quando provavelmente ele precisa ser construído passo a passo, tendo como alicerce uma sensibilidade que respeita o outro e admite que tem igual direito a professar crenças e opiniões diversas. É tudo tão provisório... Basta me remeter às crenças pelas quais eu teria entregue minha vida há dez ou vinte anos atrás. Quase todas foram substituídas, como um processo previsível do meu crescimento interior e da assimilação de conteúdos que não me eram próximos. Mas ainda preciso aprender muito, e quando traio essa vocação para me tornar minimamente melhor sinto-me desconsolado, desejoso de aproveitar o tempo que me resta.

Não gosto de chegar ao fim do dia com a sensação de tê-lo desperdiçado, sem que nada dentro de mim tenha sido mobilizado. É nosso dever não deixar que proliferem os preconceitos que reduzem tudo a um só ponto de vista. Lutar contra tendências que nos fazem crer que o valor deve ser medido pelas semelhanças. E se tudo isso vai dar em nada, nada do que eu pensava encontrar, como cantou lindamente Gilberto Gil, ainda assim continuarei tentando ser mais ético e colocando em prática respeito e compaixão. Tenho à frente um oceano ainda não navegado. É provável que eu morra sem ter conhecido sua profundidade, mas somente as margens. Seguirei, no entanto, estimulando nos outros a fome pela sabedoria, esse ímpeto que herdei de mentes mais iluminadas. Continua valendo a pena cada hora, cada minuto. Que eu mereça carregar uma alma dentro de mim.

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