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Opinião03/07/2019 | 07h00Atualizada em 03/07/2019 | 07h00

Ciro Fabres: Óscar e Valeria

Nesta aldeia global, não há "nós aqui, eles lá nós assim, eles assado". Somos todos nós

De tempos em tempos, somos abalroados por imagens terríveis, trágicas, mas emblemáticas, com alta capacidade de resolução, como costuma se dizer hoje das imagens capturadas por nossos celulares a todo instante. Imagens que nos traduzem, e a nosso modo de vida, que desemboca, entre outras facetas, em um drama migratório universal, pessoas desesperadas atrás de alguma oportunidade para si e sua família longe do país em que nasceram. Fogem da guerra, da fome, de privações que só elas sabem.

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Esta semana nos foi mostrada a imagem do salvadorenho Óscar Martínez e sua filha Valeria, de 11 anos, mortos por afogamento no Rio Bravo, fronteira natural entre os Estados Unidos e o México, quando tentavam ingressar nos EUA. Óscar lutou de braçada por um futuro melhor, para ele, para a pequena Valeria, para sua esposa, que a tudo assistia da margem. Mas perdeu para a força da água e resultou naquela imagem comovente, de pai e filha de bruços na margem do rio, sem vida. O pai lutou. O detalhe da foto, se é que já não basta o poder da foto em sua inteireza, é o frágil corpo da menina por dentro da camiseta do pai, com o braço a envolver seu pescoço. Não há o que falar sobre a foto, a não ser silenciar, fazer a homenagem devida. Talvez apontar algum detalhe e, a partir de uma imagem como essa, reafirmar nosso compromisso com a vida. Compromisso que precisa ser contraposto à indiferença.

Quatro anos atrás, em 2015, havíamos sido abalroados pela foto de Alan, um menino sírio de 3 anos cuja família tentava fugir da guerra. O corpo pequeno sem vida, levado pelas águas até as areias de uma praia da Turquia, foi recolhido cuidadosa e reverenciadamente por um policial daquele país. Os dias passam, a imagem não foi suficiente, vai ficando para trás.

Cada qual com seus problemas, se pensará. Não pode ser assim. Temos nossas questões paroquiais e nacionais, é certo. Mas devemos estar preparados para abrir espaço a situações que nos traduzem como humanos que somos, que se manifestam na margem do Rio Bravo ou em uma praia turca. Temos de ter a percepção de que há questões, acima da distância e da geografia, que precisam ser assumidas por todos. Parar diante delas e reafirmar um compromisso de vida. Nesta aldeia global, não há “nós aqui, eles lá, nós assim, eles assado”. Somos todos nós. A existência e que postura adotar diante da vida nos dizem respeito.

De longe, façamos pelo menos uma pausa para Óscar e Valeria. Ou bem mais do que uma pausa.

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