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Opinião31/07/2019 | 07h00Atualizada em 31/07/2019 | 07h00

Ciro Fabres: o bicho vai pegar

O cântico ameaça os da mesma tribo porque existe pressa até para se emocionar

Nosso estilo de vida, não é novidade, cada vez mais privilegia a pressa, a rapidez, se possível a instantaneidade. Equívoco estratégico central, pois entender um pouco da realidade, das pessoas, das relações, especular sobre a existência, aproveitar melhor a vida, isso esconde-se do lado oposto, para quem souber descobrir o caminho. Escolhas e decisões sobre questões aparentemente menos relevantes deixam transparecer a pressa. Dobrar a direita na Sinimbu, algo que se reestabeleceu no início deste governo: eis a pressa. Retirar os desfiles da Festa da Uva e todos os demais da Sinimbu: de novo ela, a pressa, a se manifestar e a distribuir exigências.

É pela pressa e pela instantaneidade que se dirige com o smartphone na mão. Para muita gente, ficar desgrudado do celular é uma tortura, pois é preciso rapidez e instantaneidade nas comunicações. Dessa forma, vai se suprimindo o espaço e o tempo da maturação dos encontros, das respostas, da convivência, da vivência, da observação.

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Havia uma operadora de celular cujo bordão era “compartilhe cada momento”. Recomenda-se viver intensamente cada momento, como se não houvesse amanhã. Se for possível, só então compartilhe. Uma das características comportamentais de nossos dias é que os mais jovens transitam em uma cultura onde há o mínimo espaço para a paciência. É assim nas relações, no emprego, ao menor sinal de contrariedade. Se quer tudo muito rápido, ao mesmo tempo agora.

As torcidas organizadas dos clubes de futebol são conhecidas pela truculência, pela disposição para a violência, em especial contra torcidas adversárias. Mas incorporam outra característica surpreendente, a ameaça e a pressão como fogo amigo. Existe até um canto de guerra, comum a várias delas, e que, nestes dias, está sendo muito usado pela torcida do Palmeiras. “Se o Palmeiras não ganhar, o bicho vai pegar...” O canto é para pressionar os jogadores do próprio time pelo resultado, pela vitória, pelo campeonato. A emoção de uma conquista no futebol é dessas coisas inexplicáveis, o que costumo chamar de uma distorção da existência. Emociona muito, mas é só um jogo. É um paradoxo, uma distorção. O cântico sugere até onde vai a pressa: pressiona e ameaça os da mesma tribo porque existe pressa até para se emocionar. A torcida do Palmeiras e as outras protestam porque querem se emocionar logo, soltar o grito de campeão.

A vida não é assim. Conquistas são feitas degrau a degrau. Aí reside a beleza. Para viver plenamente, para fazer bem feito, existe uma etapa de maturação. “O bicho vai pegar” é um cântico que aparenta inofensivo, mas revelador do tamanho da truculência e da impaciência, um sintoma de nossos dias.

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