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Opinião18/07/2019 | 07h00Atualizada em 18/07/2019 | 07h00

André Costantin: velas vermelhas

Urutau e Alfredo estão no canteiro. No desjejum, devoram duas galinhas, vermelhas também

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

(das conversas com urubus)

Manhã gelada. Do carro, vejo ali na beira do asfalto os restos das velas vermelhas; uma garrafa, pela metade (vodka ou cachaça?). Urutau e Alfredo estão no canteiro. No desjejum, devoram duas galinhas, vermelhas também. Pássaros menores disputam os grãos de comida em volta, entre papéis dourados.

– Sabe, amigo Urutau – posso te chamar assim? –, o trevo de Monte Bérico deve ser uma das capitais mundiais da macumba.

– É, seu Carlos, por isso moramos aqui na redondeza. É sempre um prato cheio. E variado! Dias atrás meteram aqui uma cabeça de bode.

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– Eu lembro; a cabeça. Essas velas eu vi ontem, acesas, quando ia para casa. Lua cheia, depois do eclipse. Havia um casal; um outro homem fazia a cena. O centro do despacho parecia ser o automóvel, uma Mercedes preta. Naquele frio. O homem rodeava o carro, entoava, depois despejava a bebida em volta do bólido. Hoje, restou ali, além das velas, uma lata de Polar. Uma Mercedes nova e deixam uma cerveja dessas para o Santo! Mas os bichos; dá uma pena! Aquele bode....

– O senhor tem dó? Natural. Pois esse tema do sacrifício dos animais em rituais afro-brasileiros chegou à Suprema Corte, recentemente. O Sr. deve ter visto.

– Sim. Eu, por acaso, andava por Brasília naqueles dias; tinha um movimento grande nos canteiros dos palácios federais. Devia ser o julgamento. Urutau, tu acompanhas o STF?

– Eventualmente. Aprecio a dramaturgia. Alguns juízes lá, em geral os mais velhos, ensaiam seus vôos retóricos, abstratos. No mais, restam uns tico-ticos em volta. Me encanta as longas togas fúnebres dos ministros. Eles julgaram legítima a morte ritual dos animais, em nome de certos traços particularíssimos da brasilidade. Não tenho uma opinião consolidada sobre.

– Pois é, Urutau. Eu também não. Fico pensando sobre os múltiplos pesos morais que se confrontam diante do direito à vida dos animais (ou de uma morte digna), e o direito atribuído às tradições humanas, de ordem mística. Mas eu, desde o meu desprezível lugar de fala, branco, católico-apostólico-romano, nem posso opinar muito sobre esse tema. À parte as questões simbólicas, o diabo é o fedor que paira eternamente aqui no trevo. Podiam, pelo menos, recolher o lixo depois, as velas vermelhas, como se faz hoje em dia com o cocô de cachorro nas calçadas. E o Alfredo, o que acha?

Alfredo, bicando sua galinha: – Não me interessa muito. Mas na questão, concordo com o Supremo Tribunal Federal. Pensam com a cabeça de vocês, humanos; melhor para nós, urubus.

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