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Opinião04/07/2019 | 07h00Atualizada em 04/07/2019 | 07h00

André Costantin: matam o futebol

O futebol é um cabra marcado para morrer pelos pistoleiros da Fifa

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Sábado de manhã, inverno. Enquanto espero Clarice na saída da escola de música, nos arredores da rodoviária, o pára-brisa do Fusca emoldura uma cena cada vez mais rara nas cidades: dois meninos jogam bola na rua.

Uma rua inclinada, larga. Em suas goleiras imaginárias, ambos jogadores, de um lado e outro da via, são centroavantes e goleiros ao mesmo tempo. A cada chute, a tentativa de um gol. Uma vez isso era o “chute-a-chute. O futebol de rua tem desafios interessantes: cuidar dos carros que atravessam o meio do campo, compensar a inclinação do terreno, desviar os vidros das janelas.

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A cena é rara porque hoje em dia os meninos, bem mais que as meninas – aparentemente –, estão inutilizados em quartos escuros com wifi, abduzidos por games de tiroteio ou Fifa Play – a coisa mais sem graça do mundo para quem um dia ralou as canelas em campinhos de periferia.

Assim, tornou-se possível ser um perna-de-pau na realidade e ao mesmo tempo um craque entubado. E, ao invés de aprender a se cuidar na rua ou nos campos reais, pode-se ser um tigrão das lutas e aventuras na web. A bolha do autoengano existencial já não engole só os meninos e adolescentes; a letargia online entra pela vida adulta. Homens feitos, vintões e trintões, permanecem nos sofás e camas de banda larga, zumbizando.

Dos quartos herméticos aos estádios de futebol, basta um pulo para notar como estão matando o futebol. Mais: a cultura do futebol, terceiro-mundista, onde ainda sobrevivia o homem demasiado humano, com alguma confusão e sangue nas veias. Primeiro foi a aclamada transposição dos padrões europeus – inclusive da corrupção internacional – para os estádios brasileiros. O público deixou de ser o povo para se tornar as famílias de classe média-alta e os exércitos de funcionários públicos endinheirados.

Dentro do campo, reinam craques pipoqueiros manejados pelas grandes marcas e incensados por uma mídia esportiva papagaia. E, agora, o advento brochante do VAR, que ameaça mortalmente a dramaturgia do futebol. Se de perto ninguém é normal, imagina com vinte câmeras em super-slow. Ligou-se definitivamente o universo dos nerds dos games ao dos atores do futebol.

Nem o juiz pode ser mais o grande “filho-da-puta” da noite, pois seu olhar está refém dos robôs da imagem. Não vi, mas me contaram que o Uruguai teve três gols anulados pelo VAR contra o Peru; num deles o mamilo esquerdo do Cavani estaria cinco centímetros impedido. O futebol é um cabra marcado para morrer pelos pistoleiros da Fifa.

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