André Costantin: começo, meio e fim - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião25/07/2019 | 07h00Atualizada em 25/07/2019 | 09h06

André Costantin: começo, meio e fim

Velho, pobre, ele dizia: "a gente sofre, mas tem liberdade!"

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 (Das conversas com urubus)

– Olá, Urutau!

– Bom dia, seu Carlos! (algum silêncio) – Porque o Senhor conversa com nós, urubus? Não teme o que as outras pessoas podem pensar sobre isso?

– Como te falei dias atrás: ando com poucos interlocutores. Difícil trocar pensamentos além deste asfalto. Não sei se sou eu, ou é o mundo que se fechou, sombrio demais. Um velho professor de Porto Alegre sempre dizia que éramos uma nação de idiotas. Eu teimava não acreditar. E olha, agora, onde chegamos! Onde está Alfredo?

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– Alçou vôo cedo, para os lados da Linha 40. Esta semana está fraca aqui no Trevo de Monte Bérico; só restos de macumbas velhas.

– Sabe, Urutau, conversar com vocês tem sido uma liberdade.

– Ah! A liberdade... Esse tema dá muito pano pra manga (desculpe o “pra”; não gosto muito do uso informal da preposição, considero um empobrecimento da Língua Portuguesa). O Sr. falava da liberdade...

– Sim. Concordo sobre as preposições, principalmente na escrita. Da liberdade... Eu preciso muito dela, de modo real, mas sobretudo mental; me tornei escravo dessa liberdade, uma contradição. Certa vez subi no alto de uma montanha, nos confins entre Verona e Vicenza, vi a planície lá no fundo, como vocês devem ver a Terra quando voam muito alto. Imaginei meus ancestrais em caravana, retirantes rumo a uma possível liberdade de além-mar. Sou herdeiro de colonos que emigraram para fugir de patrões, talvez mais do que da fome. Uma sina. Nunca esqueço do depoimento que gravei com um velho camponês na região de Silveira Martins, muitos anos atrás. Velho, pobre, ele dizia: “a gente sofre, mas tem liberdade!”. Tal memória me visitou nesta semana, quando um leitor mandou um e-mail dizendo-se incomodado e incapaz de entender onde eu quero chegar com estas conversas com urubus. Ou melhor, que eu não vou chegar a lugar algum. Que tais diálogos não têm começo, meio e fim, como as boas histórias ou crônicas devem ter. Meditei sobre; notei um certo preconceito com vocês, urubus. E também um incômodo quanto à liberdade da criação, da linguagem, enfim.

– Interessante. Nós, urubus, apreciamos muito a liberdade. Ninguém pode negar que o nosso vôo é dos mais belos do mundo. Sucede que, ao privilegiarmos carniças e sobras mortais ao longo dos milênios de evolução, nos livramos da necessidade da caça. Eis que nosso vôo, observador, alinhavando o céu, indefinidamente, resulta como uma escrita, uma crônica, linguagem, sem começo, meio ou fim. Aliás, como detesta o seu leitor.

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