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Opinião30/07/2019 | 07h00Atualizada em 30/07/2019 | 07h00

Adriana Antunes: a revolta do moinho

Empunhar uma espiga de milho como se fosse uma espada e convocar todos para uma revolução, é para poucos

Em tempos crepusculares em que as cores se misturam e já não conseguimos saber de que lado estamos (e mesmo que saibamos é perigoso dizer) sempre há alguém de lanterna que nos joga um pouco de luz. E a luz também é assustadora, principalmente para quem está acostumado à cegueira da escuridão.

Empunhar uma espiga de milho como se fosse uma espada e convocar todos para uma revolução, é para poucos, talvez somente Joanim Pepperoni poderia fazer e fez. Sábado fui ver a peça de teatro A revolta do Moinho, do Núcleo Teatral Coletivo Enredo, na Casa das Etnias cujo texto é do PHD, Pepperoni. É maravilhoso ver que a arte e a cultura movimentam pessoas, nos deslocam de nossos lugares acomodados, questionam, ironizam, debocham, nos dão uma pitada de esperança e provam que é preciso muita competência e consciência para se fazer arte e cultura, seja em Caxias, no Brasil, no país da Cocagna ou em qualquer esquina de qualquer canto em que a luz esteja sendo desligada. É consumindo arte que descobrimos que não somos farinha do mesmo saco. 

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O espetáculo apresentado conta a história de trabalhadores de um moinho, liderados pelo debulhador Maneta, que revoltados com os abusos do patrão, o Nane, iniciam uma revolta de espigas. A trama, muito bem escrita e muito bem encenada nos convida a acompanhar uma jornada que nos leva às vísceras da cultura do cocanhismo. É uma peça rica em referências, pois quanto mais as falas vão se construindo mais vamos percebendo alusões à Shakespeare, Don Quixote, Delacroix, Hobbes, Pozenato e etc etc etc. A oposição entre proletariados do sabugo e o capitalismo do monjolo nos rememora ensinamentos básicos sobre o papel de cada um na sociedade. 

A peça nos faz rir das situações peculiares que os sindicatos estabelecem entre o trabalhador e o dono do negócio. Nos faz enxergar, por meio da ironia, que o homem é verdadeiramente o lobo do homem ou em latim, homo homini lúpus. O drama épico do debulhador Maneta, que busca justiça e melhores condições de trabalho para todos do Moinho, nos ensina sobre sonhos, ética e sentido de coletividade. 

Acostumados que estamos com debulhadores alienados e Nanes cada vez mais preocupados com o próprio enriquecimento vivemos num descompasso social e humano. O conhecimento, a consciência e o desejo de mudança nascem por meio da estimulação do pensamento, e o pensamento só é estimulado pelas fundamentais entrelinhas criadas pela arte e pela cultura. É preciso plantar mais milhos como este para que floresçam coragem, consciência social e política e respeito. De preferência milho com menos agrotóxicos e sem ser transgênico.

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