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Opinião28/06/2019 | 18h33Atualizada em 01/07/2019 | 16h23

Nivaldo Pereira: o baú canceriano 

Nivaldo Pereira: o baú canceriano  Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

"Tanta saudade, preservada num velho baú de prata, dentro de mim". Esse verso do canceriano Gilberto Gil fala dos afetos encerrados em seu peito nos anos em que, por força da ditadura militar, teve que exilar-se em Londres. Mas fala também do simbólico baú de imagens que os cancerianos trazem dentro de si. Raul Seixas, outro canceriano, mantinha um baú literal, onde guardava tudo o que fosse impregnado de emoção e memória, inclusive o resto do primeiro chiclete que mascou na vida. Real ou imaginária, essa arca de referências afetivas pessoais é uma extensão da carapaça protetora do caranguejo, a manter intacto o sumo dos sentimentos, o alimento da alma.

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No baú canceriano, tudo o que já marcou o caminho da alma em sua formação pode ser outra vez acessado e revivido. Até os fragmentos mais banais ressurgem com nitidez: a chuva batucando nas telhas, a luz fraca do quarto dos pais, a colcha de chenille azul, o cheiro do talco na penteadeira, o quadro da Santa Ceia na sala, o som dos passos do pai, a mãe cantando na cozinha, a textura do pão saído do forno, a fumaça aromática do café coado, o calor do gato no colo, o olhar pidão do cachorro, a quentura do abraço da avó.

O baú canceriano também guarda imagens disparadoras de cada lição de nossa educação sentimental: a inédita taquicardia da atração, o frenesi do primeiro beijo, a música daquela hora do beijo, tudo do entorno daquele beijo, o choro por um amor que não decolou, o bilhete de raiva nunca enviado, a foto cortada ao meio, as juras de vingança, a fase cínica e descrente, um outro amor, mais outro amor, o mesmo amor em outras roupagens – ai, como dói cada fim...

No baú canceriano, cabem todas as miudezas que vão colorindo nossa saga única dentro do mistério da vida. Sem esses registros tão pessoais, viver seria somente nascer, crescer e morrer. E isso, não! Em Câncer, viver é pintar a própria história com todas as tintas da emoção, entre risos e lágrimas, dramas e levezas, agonias e êxtases. Só assim cada vida se torna especial e inimitável. E que ninguém duvide da eternidade de uma história rica de afetos, sonhos e saudades!

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