Gilmar Marcílio: o antigo e o novo - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião28/06/2019 | 07h00Atualizada em 28/06/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: o antigo e o novo

Existe um fio invisível unindo o primeiro homem ao que está nascendo agora

É preciso acolher as novidades, sob o risco de nos tornarmos obsoletos. Mas alguns pilares que nos sustentam (e atravessaram os séculos) não podem ser esquecidos. Busco sabedoria e amizade em seres que viveram há mais de cem, de mil anos. Poetas e filósofos são companhias que estão comigo desde a juventude. Mas não deixo de aprender com quem é jovem, pois preciso do seu fulgor, do desejo que transborda, para renovar meu gosto pela vida. Nesta semana, conversando com o Lucca, meu estagiário, me dei conta que tenho o triplo de sua idade. Depois do espanto inicial, percebi que nossos encontros não são permeados por nenhum abismo geracional. Em comum nutrimos o amor pelo cinema, mas nos divertimos falando sobre tudo, como se fôssemos colegas da mesma turma. Sei que fisicamente se evidenciam as diferenças entre meu nascimento e o dele, mas desconfio que elas param por aí. Mostro a quem é muito mais novo a beleza de absorver o conhecimento sedimentado pelo tempo. Que procurem não se enganar acreditando que o mais importante está sendo feito por eles, nesta época. Um olhar mais amplo nos devolve a consciência de que somos apenas uma figura de um imenso xadrez. Hoje caem algumas peças, amanhã outras. Nosso destino é cumprir determinadas tarefas, semear um pouco de afeto e deixar nosso lugar livre para outros ocuparem. Nada mais.

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Existe um fio invisível unindo o primeiro homem ao que está nascendo agora. Não me agrada ver a arrogância de quem se imagina insubstituível. Pratico a modéstia, mesmo apreciando os elogios. Dou o melhor de mim. Mas não esqueço quem disse com perfeição o que apenas entrevejo, tateando. A arte me torna um ser humano melhor, pois depura a sensibilidade e sinaliza o periférico, o que pode ser descartado. Então, abasteço meus dias lendo, contemplando e, principalmente, convivendo. Que alegria sair de casa em busca de um amigo! Partilhar com ele um verso que me emocionou ou algo visto na internet. Tentar absorver alguns fragmentos, separando o que é mera distração do que me ajuda a compreender o que acontece na vertiginosa realidade dos tablets, smartphones e celulares. Muita coisa não entendo, mas me sinto feliz por continuar acreditando que vale a pena conviver com tantas diferenças. É fácil buscar a iluminação ficando no próprio quarto. O desafio é continuar apreciando a vida apesar das terríveis notícias mostradas a toda hora.

Bebo da fonte dos clássicos, banho-me com o frescor de quem está despontando. Não quero recusar nada neste meu processo de aprendizagem. Tentarei preservar a limpidez dos meus olhos neste renovado acolhimento. Assim, descubro que tudo é relativo e fugaz: nós é que lhe atribuímos excessiva gravidade. Tento manter o bom humor, exercitando a arte de ser leve. Amanhã talvez precise me retirar. Por enquanto, aproveito o espetáculo, aplaudindo dramas e comédias. Toda e qualquer cena me interessa.

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