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Opinião20/06/2019 | 07h00Atualizada em 20/06/2019 | 07h00

André Costantin: o poderoso chefão

Quando eu iria digitar a primeira alavra desta crônica, surgiu um vozerio...

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Estou à escrivaninha velha, comprada nos tempos do setor “fora de uso” da Metalúrgica Abramo Eberle – império do qual não restou uma biblioteca. Fico de frente para uma janela deste moinho remanescente do bairro São Pelegrino, tendo a visão parcial da Rua Sinimbu. Chove. Quando eu iria digitar a primeira palavra desta crônica, surgiu um vozerio, quase uma balbúrdia – um termo tosco que anda pelas bocas do poder nacional.

Avança um minúsculo batalhão do quartel, atravancando o corredor do ônibus, na usual formação encabeçada por alguns oficiais e o resto de soldados, bandeirolas, gritos de ordem. O evento muda o curso da escrita. Eu iria contar insignificâncias sobre a morte do Pixú, o peixe Beta laranja, de como me fragilizo e me apego a estes seres, de como diria isso para Clarice, de como a pequena Aurora sentiria a sua falta na base de madeira da janela da sala, na concha-refúgio, agora vaga.

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Mas o novo-Estado simbólico do país, militarizado, ruidoso, passa diante dos meus olhos; do meu coração. Eu também escreveria, ancorado no falecimento do peixe, sobre outra morte, mais distante, de uma pessoa que servia de garçom em uma pizzaria que existia em um casarão antigo em Farroupilha, a quem, por sua postura, jeito e mistério de homem culto, costumávamos chamar de “o poderoso chefão”, para o encanto de Clarice. E contaria aqui como há anos eu vinha omitindo da menina a notícia da morte do poderoso chefão. Ela teria então sete ou oito anos de idade. Hoje, aos 13, poderia saber. Talvez nem devesse.

Eu também iria escrever, na lembrança do peixe, de como entrei no sábado à tarde em uma loja de camping e outras coisas com a intenção de comprar uma isca de pesca para, quem sabe, ver se as traíras de Jaquirana teriam acordado neste atípico calor de junho. Mas o pequeno batalhão em marcha de há pouco me fez lembrar da triste e comum figura de um sujeito com uma pistola automática, desfilando orgulhosamente seu brinquedo pela loja; e do cartaz fixado na porta do estabelecimento, dizendo que ali policiais são bem-vindos, com café, wi-fi, amizade e outros mimos que jamais declararam a mim, cliente e comprador, um mero civil.

Ia escrever sobre o beijo paternal recebido de um amigo distante que veio me visitar, vindo de outras tradições, e de como aquele gesto surpreendeu a rigidez afetiva e familiar em que fui criado. Mas o Estado policialesco e militar que avança sobre nós, como uma onda regurgitada pelo passado, invade os sentimentos, contamina os ares.

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