Adriana Antunes: o espaço e o tempo - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião25/06/2019 | 07h00Atualizada em 25/06/2019 | 07h00

Adriana Antunes: o espaço e o tempo

O espaço constantemente nos joga de volta para o mesmo lugar 

Chegar a um lugar novo e desconhecido é sempre desafiador. Eu gosto de viajar, viajaria mais, se me fosse possível. Gosto de reconhecer os objetos, olhar os postes de luz, passear pelas ruas e perceber suas irregularidades, sentir o cheiro das flores, do mato ou do urbano, de observar as pessoas, saber quem tira o lixo, quem come o lixo, quem serve o café, quem é a pessoa que lê o jornal, quem é a que fica debruçada sobre a janela, de quem são as roupas coloridas penduradas no varal. Como não as conheço, invento histórias. Apenas miolos de histórias, sem início e nem fim, talvez embriões para um outro livro, talvez um nada sendo riscado no papel. Talvez. Serão felizes? O que as impede de ser?

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Sempre olho para o céu, independente de estar aqui ou lá, onde quer seja. O espaço constantemente nos joga de volta para o mesmo lugar. Então, sempre procuro por Vênus. Daqui de onde olhamos, Vênus é tão pequeno. E toda vez me ocorre um pensamento infantil de surpresa e mistério ao lembrar que o homem já foi para à lua. Um milagre, uma engenharia, uma doidice. Faço o exercício de me impressionar com as coisas e a vida, para não entrar no automático e ficar insensível. E então acho incrível a Terra ser esse torrão de rochas escaldantes, cheia de radiação cósmica que se resfriou com os trilhões de anos que se passaram e hoje estamos aqui. Então me ocorre um pensamento bem adulto de como somos egoístas ao achar que ela nos pertence. E então entramos em disputas, competições e atritos sejam eles políticos, econômicos ou sentimentais. Lembro da morte e da sua capacidade de impor um fim a quem quer que seja, nos nivelando de modo muito democrático e simples. De certa forma somos todos muito parecidos mesmos. Independente de onde estivermos o céu será sempre o mesmo, o homem já pisou na lua e todos morreremos um dia. Faço um exercício de finitude de quando em quando para relembrar que jamais poderei controlar, nada.

A volta também é marcada pela estranheza. A casa vazia se enche de luz outra vez. As plantas ganham água, os gatos cheiram tudo buscando reconhecer seus espaços, o rádio volta a tocar um cd. Mas nada será como antes. Tudo já se alterou outra vez. O ponteiro do relógio andou, as paredes racharam ou encardiram mais, a grama se agigantou. Então faço o exercício de buscar Vênus no céu. O espaço nos joga de volta para o mesmo lugar, e assim, a vida segue afirmando que a única marca do tempo e do espaço real, somos nós e o milagre de estar aqui e agora.

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