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Opinião11/06/2019 | 07h00Atualizada em 11/06/2019 | 07h00

Adriana Antunes: amar

Essas são pequenas ternuras, que falam de nossa capacidade de amar

Plantar uma árvore; dar nomes às árvores; adotar bichos de rua; fechar os olhos quando prova um sabor diferente; ouvir o outro e não julgar; entrar numa livraria e comprar um livro de poesia de algum autor desconhecido; andar pelas ruas e se admirar com o tamanho dos ipês; se emocionar ao lembrar que os antepassados já passaram pelas mesmas ruas e acreditar que se impressionariam se vissem a cidade hoje; mandar um email amoroso para alguém querido; mandar mensagem de áudio pelo whatsapp, porque somente a voz consegue trazer um pouco de calor em meio a tanta tecnologia; fazer uma seleção de músicas, agora pelo aplicativo e não mais gravadas no cassete, para a sobrinha ou afilhado; andar pelos sebos atrás de livros do tempo de adolescente; ir ao restaurante e ousar sentar numa mesa com um desconhecido e desejar-lhe um bom almoço; guardar no bolso um doce delicioso roubado de um evento público só para dar de presente ao amor que ficou em casa, esperando; olhar velhas fotografias e perceber que a vida e o universo foram generosos conosco; tomar uma taça de vinho e agradecer à vida, lembrando que nos tempos da faculdade mal se tinha moedas para pagar um café; ir visitar a avó, o avô, já com mais de 80 anos e pentear seus cabelos brancos, cheinhos de histórias, lembranças, alegrias e derrotas; saber que se tivermos sorte chegaremos a esta idade e talvez alguém venha pentear nossos cabelos também; aprender uma receita de comida nova e fazê-la para receber amigos; aprender uma nova língua depois de um fracasso amoroso; ter coragem de cruzar oceanos atrás de si mesmo; deparar-se com uma porta fechada e saber que nem sempre elas estarão abertas; andar de bicicleta com o filho num domingo pela manhã; reconhecer a importância de determinados professores que passaram pelas nossas vidas e nos ajudaram a buscar nossos sonhos e mandar-lhes um pensamento de carinho aonde quer que estejam; lembrar-se com amor de um amigo morto; encontrar entre as lembranças de aniversários cartinhas, bilhetes, canetas nunca usadas e sorrir por saber-se sempre lembrado; mandar cartas pelo correio para amigos distantes cheias de poesia e perguntas sobre como está sendo a adaptação; dar uma moeda para o artista de rua que faz malabarismos no sinal de trânsito; descobrir um lugar de onde o pôr do sol é o mais bonito e ir até ele sempre que puder; abrir as portas de uma gaiola e soltar os passarinhos; achar que consegue entender o que um gato, um cachorro ou um boi estão dizendo. 

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Essas são pequenas ternuras, que falam de nossa capacidade de amar. Quando nos descobrimos assim, somos mais livres para amar e sentir dor, pois que amar é não fazer questão de si e emprestar-se para o outro.

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