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Opinião17/05/2019 | 18h37Atualizada em 17/05/2019 | 18h37

Tríssia Ordovás Sartori: Vidas de resiliência

Em ¿Woman¿, três mil mulheres de 40 países mostram força e capacidade de superar adversidades

Tríssia Ordovás Sartori: Vidas de resiliência Fábio Panone Lopes/Especial
Foto: Fábio Panone Lopes / Especial
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Boa parte de vocês já deve ter visto – ou ao menos ouvido falar sobre – o documentário Human, lançado em 2015, com a premissa de mostrar “o que nos torna humanos”. Assim, durante três anos, o cineasta francês Yann Arthus-Bertrand entrevistou duas mil pessoas, de 60 países, com o objetivo de tentar captar parte da alma de cada um.

Algumas dessas histórias de vida fizeram bastante sucesso isoladamente – gosto, particularmente, de uma fala do ex-presidente uruguaio José Mujica fazendo uma ode à sobriedade: “Quando eu ou você compramos algo, não pagamos com dinheiro. Pagamos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem uma diferença. Tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade”. Penso nisso várias vezes.

Eis que Arthus-Bertrand reuniu-se com a jornalista ucraniana Anastasia Mikova, que já havia estado com ele em Human, para produzir Woman, um filme ainda mais intimista, com foco nos relatos femininos de mulheres de idades, perfis e etnias diferentes, residentes em 40 países, incluindo o Brasil. Elas falam sobre violência, medo, sonho, família, etc. Grande parte delas nunca tinha estado em frente a uma câmera

Foram três mil entrevistadas – aqui, gravaram 48 depoimentos de moradoras de São Paulo, Chapada dos Guimarães (MT), Boa Vista (RR), Terra Indígena Yanomami (RR) e Salvador (BA). O cineasta de 73 anos disse ter percebido nas mulheres um senso instintivo e uma coragem que os homens não têm. Anastasia disse que surpreendeu-se em como as mulheres são resilientes.

Li uma entrevista com os idealizadores e encontrei eco em algumas percepções. Anastasia, por exemplo, recordou que ao final de alguns dos relatos difíceis e tristes, as mulheres se perguntavam por que estavam dando os depoimentos, se eram interessantes, se tinham algo de valioso para compartilhar. 

Um pouco antes, tinha acabado de presenciar uma jovem hesitar ao ser convidada para dar uma entrevista que mostraria a evolução de sua vida, de menina de rua a empresária de sucesso. Mesmo tendo superado adversidades, vencido e sendo um exemplo de superação, estava em dúvida se era digna de tal referência. Vocês têm noção de como isso é representativo?

Quantas vezes a gente não se pergunta o mesmo? Não é raro presenciar uma mulher quase se desculpar por receber um elogio: 

– Adorei essa blusa!

– Ah, ela custou baratinho, na loja tal (quase sempre, uma fast fashion)...

Quem nunca?

Quantas vezes duvidamos que fomos chamadas para palestrar porque temos informações importantes para compartilhar, que fomos promovidas porque somos competentes e que somos admiradas apenas porque somos dignas dessa admiração. Parece até complexo, mas pode ser simples: só precisamos nos olhar com a mesma generosidade que encaramos o mundo.

 
 
 

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