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Opinião06/05/2019 | 14h52Atualizada em 06/05/2019 | 15h11

Marcos Kirst: o sinal deum conto chato

E se a vida real fosse composta pela expressão sistemática da sinceridade absoluta?

Quem, senão o Pato Donald, seria capaz de dedicar energias para, sentado em uma poltrona em casa, mergulhar a fuça (ou o bico) na leitura de uma antologia intitulada “Contos Chatos”? Por mais que sejamos apreciadores de antologias (e somos, né madama, a senhora e eu), jamais optaríamos por voltar nossas atenções e nosso tempo a uma coletânea que prometesse, já a partir do título, aprofundar nosso tédio com o enfileiramento de ficções enfadonhas.

É preciso ser muito masoquista para fazê-lo. Ou ser pato, como o Pato Donald, que empunha um volume assim intitulado no quadrinho de abertura da história “Eu fui um canguru”, publicada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1947 e escrita e desenhada por Carl Barks (1901 – 2000), um dos mais talentosos quadrinistas da Era de Ouro dos Estúdios Disney. O humor sutil era uma das marcas registradas de Barks, sublinhado pela consciência de estar desenvolvendo tramas de personagens transmorfos que, no final das contas, representavam a essência da alma humana. Seu Pato Donald é um ser azarado, irritadiço e impulsivo, apenas revestido na figura de um pato, permitindo ao autor passear seu olhar sensível de cronista para expressar as nuances da vida humana através da arte narrativa batizada no Brasil como “histórias em quadrinhos”.

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Quem de nós – pato trajado de gente, ou gente camuflada de pato – teria o desprendimento de ler uma antologia de contos assumidamente chatos? Que editora concordaria em publicar uma obra dessa natureza? Quem escreveria deliberadamente um conto chato? Qual escritor abonaria a proposta de ter um de seus escritos inserido em uma antologia desabonadora? Que curador assumiria a (temerária) tarefa de selecionar os textos e classificá-los como chatos, expondo-se à ira dos autores eleitos?  

Nesse último tópico, Barks nos ajuda, conferindo nome ao pretenso curador da coletânea que arrebata (ou aborrece) Donald: trata-se de “Tédius Rotinum”.

No fundo, o que Barks talvez esteja propondo, ao inserir sutilmente a pequena piada “en passant” no quadrinho de abertura da narrativa (atendendo à máxima do bom piadista: “quem viu, viu; quem não viu, que siga adiante”), é uma reflexão sobre o choque que nos causaria se a vida real fosse composta pela expressão sistemática da sinceridade absoluta. Ninguém quer ser, resolutamente, autor de um conto chato, apesar de sabermos que eles (os autores e os contos) existem, não é mesmo, madama? Ao menos, em Patópolis, eles são escritos, publicados e lidos. Já aqui, no mundo real, vamos nos contentando com estas crônicas de segunda...

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