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Opinião13/05/2019 | 07h00Atualizada em 13/05/2019 | 14h15

Marcos Kirst: o pronome imperativo

Ele rege principalmente os nossos medos, porque nós somos uma raça de medrosos

Já pensou, nobre leitor, insigne leitora, sobre qual é a palavra que um ser humano mais pronuncia ao longo de toda a sua vida, a despeito da extensão da vida de qualquer um? Viva muito ou viva pouco, viva feliz ou injuriado, viva triste ou como um louco, seja solteiro ou amancebado, viva vida peregrina ou de parco movimento, viva alegre e saltitante ou fechado em seu tormento, viva em prosa ou viva em verso, de trás pra frente ou ao inverso, viva assim ou viva assado, na manteiga ou grelhado, viva esperto ou viva a esmo, como quer que você viva, vai viver dizendo o mesmo: "eu"!

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“Eu”, madama minha; “eu”, leitor atento! “Eu” é a palavra que pontua nossa fala, da alvorada ao ocaso, tanto dos dias quanto da existência, a conduzir o ponto de vista a partir do qual medimos a relevância do mundo. Tudo gira a partir e ao entorno do “eu”, e “eu” é quem dita o que está certo e o que está errado, o que vale e o que é dispensável, o que interessa e o que não importa, o que precisa ser feito e o que pode ser protelado. “Eu” reina absoluto a comandar nossa fala, nossos pensamentos, nossas ações, nossos desejos, nossos projetos e sonhos, nossas alegrias e frustrações, nossa conduta e nossos medos. Principalmente os nossos medos, porque somos uma raça de medrosos, madama minha, como a senhora bem sabe, e também sabe o senhor, leitor atento, cada um com seu próprio “eu” para cuidar, alimentar, vestir, adular, carregar. Haja espaço no mundo para tantos “eus” andando à solta pela aí.

Pois é, aí é que se planta o problema. Fazer os “eus” concordarem entre si, uma vez que cada “eu” é regido pelas idiossincrasias próprias que moldam a essência de cada portador de “eu” pelo mundo. Frente a esse fenômeno, é fácil cada “eu” deixar-se seduzir pelo império da idolatria a si mesmo, uma vez que somos obrigados, por natureza, a convivermos com nossos próprios “eus” da manhã à noite, dia por dia, e ainda por cima, a sonhar com eles (com “eu”). Não nos livramos jamais de “eu”. Eu fiz, eu faço e eu farei. “Eu quero”, na verdade, é a expressão que comanda e está por trás de tudo. O pronome impõe-se no cotidiano sobre a eventual evocação de todos os outros, que nos interessam em uma escala bem menor; “tu”, “nós”, “ele”, “ela”, “vós”, “eles”, “elas” (a não ser, claro, quando estão a serviço da satisfação das demandas de “eu”).

Esse enfadonho mantra monocórdico só faz uma leve guinada, abrindo uma brecha em meio ao céu nublado do “eu”, quando se permite luzir uma réstia de brilho do outro, que também existe e pede luz. Mas aí “eu” tem de querer, né, madama?

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