Gilmar Marcílio: misture bem - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião24/05/2019 | 07h00Atualizada em 24/05/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: misture bem

Sejamos menos intolerantes, observando antes os defeitos que nos habitam.

A palavra pureza diz algo a você? Creio que ela pode ser aplicada em raras circunstâncias da nossa vida. As coisas vão se mesclando, adquirindo tons variados e tornando tudo bem mais interessante. Isso pode ser entendido facilmente quando nos reportamos ao conceito de raça. O sonho de alguns ditadores foi o de fazer uma limpeza étnica, como se uns tivessem valor superior em relação aos demais. A questão do arianismo é um exemplo bem-acabado do que pode resultar de uma percepção equivocada. A riqueza está em seu oposto, quando a noite encontra o dia; o frio, o calor; o salgado, o doce. Se optamos por valorizar apenas um deles, corremos o risco de perder uma boa fatia da realidade. A natureza apresenta situações significativas para reforçar o conceito de heterogeneidade. O solo que recebe sempre as mesmas sementes, tende a enfraquecer. Até que chega a hora em que se torna estéril. Se conseguirmos ter uma visão mais ampla, destituída de dogmas de ordem moral e religiosa, será mais fácil compreender e valorizar todas as polaridades, buscando em cada uma delas apenas uma referência, não um padrão a ser seguido cegamente.

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Quanto a mim, procuro misturar bem o que se apresenta como possibilidade de convivência. Gosto de estar com velhos, jovens e crianças. Brancos, pretos, mestiços e outros. Héteros, homos, bissexuais e toda a fascinante variedade que comporta o desejo sexual. Intelectuais, gente humilde e até com os arrogantes que me mostram o que não quero ser. Fico atento e continuo próximo de todos. Os alegres, os melancólicos, os solitários e os que precisam procurar pessoas constantemente. Quem trabalha compulsivamente e os que acreditam que fomos feitos para o descanso e a contemplação. Quem aprecia música, quem é generoso e quem poupa; quem namora e quem se basta a si mesmo. Somos uma fauna maravilhosa, basta suspender um pouco nosso senso crítico para usufruir desse leque quase infinito de criaturas. Cada um é o que pode ser. A genética é implacável, sabemos, mas uma visão particular não deve servir para ampliar nossa miopia. Um pouco mais de acolhimento, uma pitada de boa vontade e todos poderão coabitar sem tantas cercas. Reais ou imaginárias.

Somos fruto do nosso tempo, mas a capacidade de ver e aceitar o outro em sua alteridade pode nos ajudar a compor um cenário mais racional, mais amoroso. Cuidemos para não excluir o que é parte vital do nosso processo civilizatório. Quase oito bilhões de criaturas buscando a felicidade, cada um do seu jeito. Sejamos menos severos, praticando antes a autoanálise. Continue misturando. Toda pele e toda alma é uma manifestação do sublime. Insurja-se contra os que sonham com uma sociedade feita de castas. No ponto zero, temos todos o mesmo valor. O que varia é nossa predisposição para não separar. Conheça, depois julgue.

Convença-se disso: a matriz é única.

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