Gilmar Marcílio: bendita rotina - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião03/05/2019 | 12h02Atualizada em 03/05/2019 | 12h02

Gilmar Marcílio: bendita rotina

Sejamos mensageiros de cada pequena eternidade que assombra a existência

Depende do seu olhar: os dias podem ser monótonos ou revestidos de encanto. Basta treinar a sensibilidade para descobrir poesia no trivial, no que se repete. Não sonho com nada de extraordinário, mas com a capacidade de extrair beleza onde tantos veem apenas uma sucessão de fatos tediosos. Nada é. Infelizmente, ao longo da vida, vamos perdendo o que para as crianças é absolutamente natural: a disposição para se espantar. Eu treino: acordo com um largo sorriso no rosto pois sei que, embora algumas tarefas não tão emocionantes me esperem mais tarde, posso desentranhar agradáveis surpresas no que costumo fazer sem grandes variações. O café da manhã, o ato de abrir todas as janelas da casa, deixando a aragem adocicada entrar, já é razão suficiente para que me sinta bem. Vestir o corpo com uma roupa leve e sair pelos caminhos em busca dos perfumes de outono. Abrigar no coração o indizível azul do céu de abril. Amar o sol e a chuva, o vento e a neblina, aspirando o ar que alimenta os pulmões. Estar consciente que, sem isso, não haveria pulsação, movimento, sensação de ordem alguma. Contentar-se com o que nos é entregue, sem expectativas, pois o que recebemos ao despertar já é benção para uma gratidão infinita.

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Haverá algo de mais belo do que encontrar um bom amigo, a pessoa amada, ou mesmo esbarrar na rua com alguém que se queira bem, mas não se via há tempo? É nisso que reside o sagrado: na manutenção de reconhecimento do afeto. Sentindo-se saudável, visitar a livraria que nos abastece com recôndita sabedoria, o mercado onde compramos as frutas da estação, a loja que expõe na vitrine um objeto que nos agrada. E quando chegamos ao local de trabalho, que nos seja dada a fortuna de continuar agradecendo, pois ele sustenta a nossa sanidade. Privados, vagamos a esmo, sem saber bem o que fazer. Precisamos dessas âncoras que costumamos desprezar. Desses encontros que nos ligam ao mais essencial. O indesculpável pecado talvez seja não reconhecer o extraordinário no comum, sonhando com um capítulo inédito a cada nascer de sol. Pois as novidades são gestadas primeiro na alma e depois transpostas para a mente, a ação e as palavras.

Sou um homem que carrega alegrias dentro de si. Essa é minha bagagem e o que procuro ofertar a quem está comigo. A expectativa de ver um filme, um abraço inesperado, alguém que me visita, o silêncio de uma noite de domingo. Quero preservar em mim, com nitidez, o que tende a passar despercebido. Que venha o que é igual, mas pleno de consciência. É aqui que reside a liberdade humana: no reconhecimento de que tudo vale a pena. Passam as dores e as aflições. Passam os contentamentos. Sejamos mensageiros de cada pequena eternidade que assombra a existência. Todas as paisagens são fugidias: saibamos reverenciá-las para não aninhar o pranto tardiamente. Há um hino de felicidade que precisa ser cantado sempre e sempre. Que ele seja constantemente abastecido por nossa voz.

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