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Opinião09/05/2019 | 07h00Atualizada em 09/05/2019 | 07h00

André Costantin: terceiras margens

"Ele está apoiado com os braços na cerca, olhando imóvel, longamente, para o nada daquela estrada"

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Bianca decidiu me morder. Eu me sentia cansado na bike; desgarrei do grupo no meio do caminho e voltei sozinho pelas trilhas encharcadas. A solidão que eu queria no ventre da terra me levava àquelas terceiras margens dos campos do Juá, da Cadeinha e do Lavapé, em pensamentos sobre a vida que nunca chegam a lugar algum, mas que vão tocando o nosso barco um pouco adiante pela "Terceira margem do rio" – o clássico conto de Guimarães Rosa.

Quando cruzava por uma casa perdida num clarão da mata, Bianca arrepiou o pelo e veio rosnando por baixo do arame farpado. Desmontei do meu cavalo de carbono e fui caminhando pelo lado oposto. Foi aí que eu soube o seu nome, quando a dona da cachorra começou a gritar da soleira da porta para Bianca se acalmar – uma vira-lata robusta, cruza certa com cães ovelheiros da redondeza, pelagem curta e, claro, branca.

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Andamos uns vinte metros, trocando nossos códigos no barro, Bianca, eu, a bike entre nós, como escudo. Sem arredar muito, nem ela ou eu, negociamos a solução ideal, uma terceira via: ela bancava a fama de guardiã da casa, eu seguia o meu caminho, na esperança de encontrar o cogumelo porcini que eu tinha visto quilômetros antes.

À noite, em casa, lendo um livro uruguaio sobre a cultura do mate, onde o autor, Javier Ricca, discorre sobre as origens e tradições indígenas ligadas às ervas da categoria Ilex, do norte ao sul da América, chego a uma citação de Fernando Benítez: “Cuando um índio muere, arde com él una biblioteca.”

No dia seguinte, descendo a Porto Alegre por um caminho alternativo, que hoje chamam Estrada da Uva, vejo um ancião de grandes bigodes e chapéu de palha na beira da estrada, naqueles confins difusos entre italianos e alemães. Ele está apoiado com os braços na cerca, olhando imóvel, longamente, para o nada daquela estrada. Navegava por sua terceira margem. Pensei: quando morre um homem destes, também ali uma pequena biblioteca jamais escrita, feita de saberes e falares antigos, também arde pelos contrafortes da serra.

Hoje, chego na sede deste moinho de sonhos que resiste na Coronel Flores quase Sinimbu, com seus tijolos antigos que olham a urbe cada vez mais sem graça. Sento à escrivaninha com pedaços de uma crônica a ser escrita. Enquanto preparo o mate, o parceiro do trabalho me dá a notícia da morte de um Senhor caxiense, um desses homens a quem chamamos de “Seu”. Seu José Angeli. Sempre sereno, guardador do espírito de um tempo. Um navegante das terceiras margens desta cidade sem rio

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