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Opinião23/05/2019 | 07h00Atualizada em 23/05/2019 | 07h00

André Costantin: histórias do mate

 As minhas relações duram até o ponto em que se pode tomar um mate juntos

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Não vou apelar para o clichê literário da página em branco. Quem gosta de lugar-comum, de um "chavão", é o presidente – e ainda assim tropeçando nas próprias e pobres palavras, como fez na semana passada em sua miniturnê por Las Vegas.

Pronto. Agora que já sujei a crônica e afastei parte dos possíveis leitores ainda embarcados na nave da abdução geral da República, vamos ao fato: são onze da noite e tenho um texto a escrever, depois de outro dia de edição de um filme-documentário. Vou dormir e confiar no milagre matinal do mate.

... (reticências oníricas)

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A água começa a chiar na tecno-jarra made in China. Vou cevando a erva, enquanto a gata pede comida; o peixe Beta dança no vidro, ansioso, querendo também. O ritual do mate me envolve de sugestões. A página em branco da noite agora já vai ficando curta.

Acho que tudo na minha história do mate começou, obviamente, com pai e mãe. Mas é outra imagem, ancestral e rústica, que ficou enraizada no meu ser profundo: o avô materno, na colônia, na órbita do fogão à lenha ao clarear do dia, mateando em silêncio, pensamentos em idioma de além-mar.

Então, neto de brasileiros tardios, filho de colonos suburbanos, eu tomo parte da cultura do mate, feito uma âncora – como assimilaram aos indígenas, em tantas variações, os castelhanos, negros, portugueses, imigrantes de muitas cepas e até mesmo os urbanóides porto-alegrenses.

Meu único apego nacionalista se deve talvez ao mate. Tenho um mapa emocional, de fronteiras difusas. Pode ir do sul profundo do Cabo Polônio à Guajará-Mirim, onde tomei uma cuia de chimarrão amazônico com um tipo meio boliviano num posto de gasolina às margens do Rio Madeira.

Garimpo ervas boas, fora do pacote. Fico nervoso se o estoque se aproxima do fim. Gosto de carro com câmbio automático para dirigir e matear mais solto, no roll das minhas contravenções. Sem air-bag. Minha única herança formal, ritualizada, foi uma bomba Tacuapi de prata e ouro, entregue pela minha mãe quando saí de casa. As minhas relações duram até o ponto em que se pode tomar um mate juntos. Se não der mais, ferrou!

Mas a pior que já fiz foi em 2007. Sigo rumo à Antártida para dirigir um trabalho. Na baldeação do bote para o navio polar, por uma escada vertical na popa, a velha bomba enrosca num degrau. Dilema vital: uma mão suspensa na estrutura, outra na mateira e nas mochilas. Geleiras emolduravam o convés do navio, de onde vinha o aviso sonoro: “atenção, tempo de permanência na água com vida estimado em 60 segundos”.

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