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Opinião30/05/2019 | 07h00Atualizada em 30/05/2019 | 07h00

André Costantin: Hard & Harvard

Adequar-se ao que somos, sintonizar a mente ao nosso hardware possível, é uma tremenda liberdade

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Tenho os pés duros, feios. Para usar um estrangeirismo enviesado no nosso vocabulário mundano, tenho um pé hard. Pé hard rock: bruto, tosco. Para dizer a verdade, pés horríveis. Minha filha de 13 anos, nos seus dias mais hards, me acusa – injustamente – de ter-lhe legado mais este defeito genético.

Meus queridos pés: dedões deformados de chutar tocos nos campos da infância, unhas com micoses que se inclinam a cascos. Já tentei de tudo, quando jovem. Até usei por um tempo – dica de um agrônomo – aquela solução de verderame, sulfato de cobre, o popular antifúngico que se aplica nas folhas das parreiras aqui da Serra. Nem isso adiantou.

Vencido, resolvi incorporar os pés, tal como eles são, ao meu currículo existencial, imagético. Uso as sandálias no verão, com a naturalidade de quem mora em Monte Bérico, racha a própria lenha nas horas de folga e depois vai trabalhar no escritório em São Pelegrino. Com o terno invisível da velhice, que o alfaiate do tempo vai pregando no meu corpo, hoje sinto até orgulho destes pés de verdade.

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Adequar-se ao que somos, sintonizar a mente ao nosso hardware possível, é uma tremenda liberdade. Mas isso pode levar décadas, muito sulfato de cobre nas paletas; nem sempre se alcança. Em nosso software, nas subcamadas do ser, debaixo das unhas e dos cabelos, sucede o mesmo. Difícil aceitar ou ser o que se é. E aí me ocorre a segunda palavra do título desta crônica: Harvard.

Pois Harvard e um naipe de famosas universidades americanas viraram a nova ostentação de personalidades nacionais, justo neste tempo de desprezo ao conhecimento no Brasil. Gente querendo evidência, pesquisadores midiáticos e, pior, juízes e políticos, à direita e à esquerda, agora esfregam canudos e títulos de Harvard na nossa fuça de vira-latas, como se isso fosse um pedigree redentor da nossa mente colonizada.

Obrigado, senhor(x)s: passei pelo colégio Santo Antônio (onde, confirmando o ditado, se entrava santo e saia demônio), fiz Senai, ralei na Unisinos e na UCS. E estou aqui, talvez mais humano e pensador que o governador do Rio, que citava um falso diploma em Harvard no currículo, para depois se exibir com um fuzil a bordo de um helicóptero.

De volta aos pés: além do visual hard, tenho os dedos indicador e médio grudados até a metade. Já repassei este outro curioso desvio morfológico para as minhas filhas, com atenuantes, algo que deve desaparecer no curso da próxima geração de pés-costantins. Tema para um pós-doc em podopsicogenética em Harvard.

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