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Opinião15/04/2019 | 07h00Atualizada em 15/04/2019 | 07h00

Marcos Kirst: verdades da boneca de pano

Tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura

"Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura". Essas filosofanças profundas e singelas não provêm da limitada capacidade deste mundano cronista, mas, sim, da genialidade de Monteiro Lobato, dando voz e vida a uma de suas mais brilhantes criações: Emília, a boneca de pano do Sítio do Picapau Amarelo.

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O texto aqui reproduzido pertence à abertura do livro Memórias da Emília, em que a personagem protagoniza uma hilária e ao mesmo tempo reflexiva saga ao tentar narrar por escrito (com a ajuda do Visconde de Sabugosa, por ela empossado na função de seu secretário) os fatos que marcaram sua existência. “Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso.”, explica a boneca para uma estupefata Dona Benta. O livro surgiu no ano de 1936, integrando a saga de aventuras infantojuvenis da Turma do Sítio, que vem encantando sucessivas gerações de leitores brasileiros. Lobato morreu em 1948 e, passadas sete décadas, sua obra cai agora em domínio público, permitindo reedições e adaptações de todas as sortes. O que fica, para sempre, é a magia e a sutil avaliação das nuances da alma humana, representadas pelos personagens e pelas tramas das obras, como as reflexões sobre o que é e o que não é a verdade, evocadas pela Emília no início desta croniqueta de segunda.Em sintonia com o momento, o Instituto de Leitura Quindim, daqui de Caxias (situado junto ao Centro Cultural Moinho da Cascata, Rua Luiz Covolan, 2820), convida o público para visitar a mostra intitulada Sra. Dona Emília de Trapo de Macela, em que sete artistas plásticos da região revisitam a personagem a partir de seus talentos. Ilka Filippini, Sharizy Pezzi, Marina Prochászka, Marina Rombaldi, Matheus Montanari, Volnei Canônica e Rafael Dambros (que também responde pela curadoria) integram o time que mergulha na magia do Sítio do Picapau Amarelo para reinventar reinações artísticas ao agrado de crianças de zero a 99 anos. A mostra abriu na semana passada e segue até o dia 12 de maio. A visitação é gratuita. Uma experiência criada para ficar na memória e evocar as verdades mais íntimas de cada um, tanto das de seres de pano e macela quanto das de carne e osso. Chega lá!

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