Gilmar Marcílio: sou quem sou - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião12/04/2019 | 07h00Atualizada em 12/04/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: sou quem sou

A cordialidade é um lago em que descanso das minhas fadigas

 O descontentamento parece ser o traço fundamental do ser humano. Sempre arranjamos tempo e disposição para nos queixarmos. Vivemos numa época em que as comparações se tornaram a base dos relacionamentos. Um olho na vida real e outro na virtual. Alguém sempre parecerá mais feliz do que nós. Como ficar triste em Bali? Tenho tentado a prática de certos exercícios que provocam a alegria e o prazer de estar vivo. Fico atento a tudo que chega ao coração e ao cérebro, mas com a humildade dos que sabem que será possível aprender apenas uma parte da lição. Gosto de agradecer e elogiar. Esforço-me em ver mais as qualidades do que os defeitos dos que estão ao meu lado. Resisto à tentação dessas pequenas maledicências que colocam em risco o crescimento interior. Parecem inócuas, mas contaminam o pouco de poesia que porventura ainda viaja em nossas veias. Lembro com insistência da bela fórmula de Nietzsche: “Torna-te o que és.” Evito desviar-me de mim, sobretudo nas ocasiões em que o que vejo não é nada admirável. Contemplo as multidões que me habitam e procuro revelar o que me parece ser a melhor versão. Que não exclui a frustração por saber que o tempo será insuficiente para o carvão virar diamante.

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Afasto-me o mais que posso dos queixosos e dos mesquinhos, que esses tornam a existência um fardo. São como a pedra. É algo que não me interessa sentir. Evito aconchegar o erro, mas ele participa do que sou e promove necessários exames de consciência. A crença no acaso ou no destino se misturam, pois sei que o mistério continuará bafejando na nuca como um simpático monstro de olhos azuis. Por isso é importante acreditar num deus ou numa pessoa. Um deles poderá nos salvar. Abismos me contemplam, embora eu habite com mais constância as planícies. Um abraço ilumina meu dia e a cordialidade é um lago em que descanso das fadigas. Tanto ainda por aprender, como alguém pode falar em tédio? Acho que duzentos anos não me tirariam esse gosto e essa vontade de mastigar tudo em grandes bocados. Procuro fazer dos dias uma eterna manhã de domingo, quando o corpo acorda mais tarde, mas a vigilância permanece. Não preciso esperar pela primavera: eu a invento quando estou com meus amigos. Longe de casa, eles tornam toda habitação mais desejável. São como florestas que nunca devassarei totalmente, mas que me dão a esperança de que, na minha morte, eu possa exclamar: Já terminou? Que pena!

Pense, então, que é melhor apreciar do que crispar o rosto alimentando o fastio dos que já desistiram. Tenho encontrado tantos mendigos sentados sobre potes de ouro. São amados, mas sempre sonham com um ideal que não existe. Buscam um sentido para tudo, esquecendo de simplesmente se entregar. Meu tema para hoje será o de assimilar esse ensinamento de Confúcio: “O Homem Nobre é exigente consigo próprio, o Homem pequeno é exigente com os outros.”

Serei capaz?

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