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Opinião26/04/2019 | 07h00Atualizada em 26/04/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: sim, mas...

"O diálogo, mais do que uma batalha, é uma entrega."

Não sei se isso acontece também com você, mas poucas situações me desestabilizam mais emocionalmente do que, depois de expressar uma opinião, a pessoa com quem estou falando responde dizendo: "Sim, mas..." Se isso é ocasional, tudo bem, pior é quando se torna um traço recorrente da personalidade. Mal se consegue emitir um juízo e já encontramos discordância, mesmo antes do raciocínio ter sido completado. Falo desses seres que acreditam que suas manifestações são fundamentais para o bom andamento do mundo. E que são sempre superiores as nossas. Nem é preciso levantar assuntos polêmicos. O banal também desperta a compulsão em se contrapor ao que o outro diz. Confesso que atitudes dessa natureza testam meu limite de resistência. Que, bem o sei, não costuma ser muito elástico. É tão bom estar ao lado de alguém que sabe relaxar e não fica de prontidão, disparando compulsivamente argumentos que lhe parecem mais eficazes. O dom de ouvir com acuidade constitui-se numa virtude capital para o bom andamento das relações humanas. Sair de si mesmo e ir ao encontro de quem está a nossa frente constitui-se num exercício de bondade e compaixão. Entender que o diálogo, mais do que uma batalha, é uma entrega, a possibilidade de ultrapassar o nosso limitadíssimo eu e compreender o que significa a alteridade.

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A atenção reverencia a amizade e o amor. Ninguém precisa sacudir a cabeça em eterna anuência só para agradar. Mas acho que estamos exagerando na nossa compulsão em expressar opiniões, sem nos propormos a escutar. Embora saibamos que a grande maioria de nós precisa somente disso: uma voz que não resista ou demonstre pouco caso. Somos criaturas carentes, que se afirmam a partir da aprovação dos demais. A postura do corpo, o relaxamento dos ombros enquanto as palavras estão sendo proferidas, revela o quanto nos permitimos suspender o julgamento. Diversas vezes me surpreendo traindo esse propósito, principalmente com quem não conhece o significado da palavra síntese. Ao perceber isso, lembro que o tempo gasto será o de uma porção ínfima da minha existência. E me conformo. A paciência é uma virtude que deve ser cultivada. No entanto, a vontade que sinto é de interromper a conversa sempre que é sinalizado um equívoco, ainda no início da argumentação.

Prefiro esbarrar num chato do que ser o chato da vez. A delicadeza de disponibilizar-se para quem está próximo e para desconhecidos sem estar armado de certezas é uma postura a ser expandida. O que sabemos é provisório e parcial. Somos míopes seletivos, movidos pelo interesse em justificar tudo. Portanto, troque a frase do título acima por outra, bem menos nociva: “Tens razão, eu não havia pensado nisso antes”. Não é simpático ouvir isso de alguém? Você fortalece vínculos e, de quebra, pode incorporar novas percepções à sua realidade.

Concordar é um ato de inteligência e sensibilidade. Aproxima, acolhe, abraça.

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