Gilmar Marcílio: luz e trevas - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião19/04/2019 | 07h00Atualizada em 19/04/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: luz e trevas

¿Só os muito amargos ceifam o que os desagrada.¿

Uma amiga querida completou 80 anos. É uma das mulheres mais exuberantes que conheço. Mas, ao mesmo tempo, mantém a discrição como um traço fundamental de sua personalidade. Não se exibe e não se esconde: é o que é, sem a necessidade da aprovação alheia. Uma vizinha me conta que nunca a viu depositando o lixo em frente ao apartamento onde mora sem estar de salto alto e maquiada. De preferência envolta em um robe de seda. Ao encontrá-la, recentemente, contou-me esta novidade: está namorando. O homem tem 45 anos e, em suas palavras, é a segunda loteria amorosa com que a vida a presenteou. Revelou-me o fato com a maior naturalidade, como quem comunica que irá viajar ou fazer um curso de bordado. Nem deu a chance de me espantar, se esse fosse o caso. Não era. Nela tudo é espontâneo, e em nenhum momento conjecturei haver algum tipo de interesse neste relacionamento. Até porque está longe de ser milionária. Tem o suficiente para não se privar do que aprecia. O resto conquista com sua simpatia e capacidade de ver o mundo destituída de preconceitos. É livre porque deixa os outros serem livres do jeito que querem e conseguem. Coloca em prática o que muitos reservam para a imaginação.

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Na mesma semana, leio numa revista que o sultão do Brunei, mandatário supremo deste pequeno país asiático, um dos mais ricos do mundo (para ele e seu feudo, naturalmente), implementou uma nova lei. É a interpretação literal da Sharia, código milenar da religião islâmica. A partir deste mês de abril, todos os adultos que forem surpreendidos em atos de adultério ou homossexualismo, serão mortos por apedrejamento. Em praça pública. Você consegue pensar em algo mais medieval do que isso? Conjecturei, com uma mescla de tristeza: que sorte termos nascido no ocidente, onde, a despeito da violência e do desrespeito a muitos códigos de civilidade, ainda podemos nos expressar sem correr grandes riscos de perder a vida. Paga-se o preço da discriminação, mas o sangue continua correndo nas veias. Por que será que o poder, qualquer tipo de poder, faz com que as pessoas se sintam autorizadas a legislar sobre os atos alheios? No caso desse ditador, por que se preocupa tanto com o que seus súditos fazem na cama? O desejo de controle, a dominação por meio do terror. E eles sempre encontram adeptos para a manutenção de seus princípios de falsa moralidade.

Relato esses dois casos para ilustrar a ideia de como a existência pode ser um pêndulo entre a luz e as trevas. E que o nosso compromisso é evitar a tentação de punir o que acontece no campo privado. Quando fecha a porta de sua casa, o que se passa lá dentro (desde que não haja algum tipo de violação do outro) só diz respeito a você. Pois ser feliz não é tudo o que se precisa e quer? Por que isso incomoda tanto a quem não o é? Usar o nome de Deus para justificar nossas inclinações mais torpes é vergonhoso. Prefiro o ateísmo sincero, pois não prejudica ninguém.

Portanto, contenhamos nossos impulsos de julgamento sobre a conduta de outrem. A grandeza acolhe a diferença e a tolerância. Só os muito amargos ceifam o que os desagrada.

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