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Opinião16/04/2019 | 09h44Atualizada em 16/04/2019 | 09h44

Adriana Antunes: ter consciência

Precisamos pensar menos e sentir mais. A vida é aquilo que fazemos dela

Não basta abrir a janela para ver o dia, as árvores e as flores. É preciso que nos abandonemos, que deixemos de lado as teorias e os julgamentos. A natureza não precisa de nossas teorias e conceitos. Os passarinhos não carecem de nossos entendimentos de linguística, medicina ou advocacia. Quando muito, desejam o pote de ração do cachorro. Aqui pelo menos é assim, os Joões de barro se fartam na tigela de comida sobrada do Danton. Há um mundo imenso do lado de fora. E do lado de fora há também o Outro. Esse ser estranho que nos desafia a ter empatia, tolerância, amorosidade, paciência, aceitação. É possível que tenhamos inúmeras teorias de como podemos viver melhor em sociedade, mas elas pouco adiantam se não nos dispusermos a fazer mais do que apenas abrir a janela para olhar o dia.

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Escutamos sem nos ouvir. Se a vida fosse somente como tu imaginas, ela seria apenas como tu imaginas e nada mais. E assim cada um de nós imaginaria o que quisesse e viveríamos em bolhas, mais distante do que já vivemos. Não somos nem mais nem melhores que ninguém. Sentimos de modo muito parecido, temos raivas que se igualam na coloração, amores plenos ou desbotados, corpos que envelhecerão ou já contabilizam a passagem do tempo, dinheiro contado, desejos irrealizáveis e ilusões. Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, costumava dizer que o importante é ter consciência. Se somos mais ou menos que as pedras e as plantas, não sabemos, mas sabemos que somos diferentes. E a realidade da natureza se faz presente em mim, em você, nas pedras e plantas de modo espantoso. Deveríamos nos maravilhar todo dia com o milagre da vida, por mais clichê que isso pareça. Estar vivo e existir é o suficiente para estarmos completos. E a vida é independente de nossa vontade.

Olho para os passarinhos que passeiam pelo jardim depois da grama cortada. Não sei quem os avisou que haveria chance de uma outra comida além da ração do Danton, pelo pátio. Mas eles se achegam aos montes. Compartilham o que encontram, brigam pelo pedaço maior da pobre minhoca, mas logo voltam a estarem juntos. Lembro de um segundo poeta querido, Manoel de Barros. Penso sempre que ele tinha muita razão ao dizer que somos ignorantes para a vida que existe do lado de fora, quando abrimos a janela para ver o dia.

Precisamos pensar menos e sentir mais. A vida é aquilo que fazemos dela.

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