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Opinião02/04/2019 | 07h00Atualizada em 02/04/2019 | 07h00

Adriana Antunes: pão e poesia

Não há espaço na casa que seja mais repleto de memórias do que a cozinha

Eu gosto de fazer pão em casa. Nem sempre consigo, nem sempre quero. Mas há dias em que me volto para a cozinha em busca de poesia, aromas, lembranças. Há dias em que o ato de preparar o alimento é uma forma de reconexão com a vida e com os outros. Me alimento ao alimentar aqueles que amo. Não há espaço na casa que seja mais repleto de memórias do que a cozinha. Ali as histórias de quem veio antes, os costumes, as tradições, os gostos, os temperos, os rituais se reatualizam. São receitas que sobreviveram ao tempo, aos desencontros, aos desenraizamentos geográficos, as migrações, as segregações sociais. É por meio da comida, dos hábitos que adquirimos na alimentação, que muitas vezes buscamos nossas identidades, reencontramos nossos antepassados queridos e recontamos suas histórias dentro das nossas. A comida quando invocada pelo amor e não usada como compensação para a ansiedade, conforta, acolhe, reduz o desamparo, preenche o vazio de um estômago entristecido e solitário.

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Há inúmeros estudos baseados na história da civilização que resgatam o valor da comida, enquanto metáfora de pertencimento. Judeus, italianos, alemães, senegaleses, todos nós, seres humanos, carregamos em nossas barrigas o desejo do alimento partilhado, em comunhão. Talvez tenhamos nos afastado um pouco, acelerado nosso tempo, nos envolvido com a necessidade do fazer diário e isso nos jogou para uma alimentação pouco saudável e impessoal. Claro, não dispomos mais do tempo de nossas avós, mas não podemos abrir mão da escolha do que vai alimentar nosso corpo.

Eu gosto de fazer pão em casa. Nem sempre consigo, nem sempre quero. Mas toda vez que faço penso no simbolismo que ele carrega. O pão que faço leva o nome de minha avó paterna, Virgínia. Uma mulher forte, filha de imigrantes alemães, mãe de 16 filhos, que costumava me beijar o rosto todo, bochechas, olhos, testa e enquanto me beijava eu sentia o cheiro de pão e farinha que vinham dela. Um pão que evoca a proteção de Nossa Senhora de Fátima, de quem era devota. Um alimento simples, rústico, à base de água, farinha e fermento. Um alimento pleno de memória e poesia temperado com sálvia, alecrim e azeitonas. O forno é o útero da casa, ali a vida é gerada, sofre uma alquimia, preenche a cozinha de cheiros, aquece o ambiente e dá a sensação de se viver em uma casa habitada. Talvez tudo não passe de uma grande ficção, mas acredito que alimentar-se e alimentar ao outro é a maior prova de amor. Alimentamos com comida, palavras, histórias, sonhos, gestos e memórias.

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