Tríssia Ordovás Sartori: espelho, espelho meu - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião22/03/2019 | 18h36

Tríssia Ordovás Sartori: espelho, espelho meu

Quantas vezes precisamos fazer um esforço para parecermos melhores, para que não reconheçam nossas fragilidades?

Tríssia Ordovás Sartori: espelho, espelho meu Fábio Panone Lopes/Especial
Foto: Fábio Panone Lopes / Especial
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Com uma cesta cheia de potes e potinhos, dirigi-me ao caixa da farmácia. Atrás do balcão, estava a mesma mulher simpática que tinha oferecido ajuda minutos antes, quando entrei no estabelecimento. Olhei nos olhos dela e notei que eles estavam perfeitamente delineados. E, numa fração de segundos, mil pensamentos passaram pela minha cabeça, sendo o mais marcante dele minha falta de habilidade para usar o delineador e fazer um olho de gatinho perfeito. Abstraí, voltei ao momento presente e elogiei a maquiagem, tão bem feita.

Para minha surpresa, a atendente suspirou, como se lamentasse. Falou que acordar cedo pela manhã e precisar caprichar na maquiagem não era o início de dia com o qual ela havia sonhado. Parecia linda, mas na verdade escondia um enorme desconforto. Ela podia apenas ter sorrido e agradecido, eu poderia ter apenas ignorado, mas ambas compartilhamos um instante de empatia mútua, num contato rápido e superficial.

Quantas vezes a pessoa que enxergamos no espelho não reflete o que sentimos? Quantas vezes precisamos fazer um esforço para parecermos melhores, para que não reconheçam nossas fragilidades? Tenho a impressão que, muitas vezes, nós apenas vamos seguindo a batida e deixando o que se gente sente para lá. Isso pode ser uma defesa, uma tentativa de seguir. Mas ele volta, inevitavelmente.

O tal momento presente, tão cultuado e versado hoje em dia, é raro: mal lembramos o que estávamos fazendo antes de interromper uma tarefa para começar outra. Tenho uma amiga que trabalha muito – não só porque quer e a faz feliz, mas porque precisa sustentar sozinha o filho – e, mesmo sobrecarregada, encontra tempo para rir da situação. Me contou que, ultimamente, só não faz cópias de chaves e autenticação de documentos. O resto todo está topando. Gargalhamos juntas e compartilhamos mais um suspiro de empatia.

Precisamos nos desdobrar, enganar o cansaço, maquiar as olheiras, fazer olho de gatinho e seguir. Volta e meia, que além disso consigamos atrair olhares de cumplicidade  e empatia pelo caminho, e que esses pequenos encontros sirvam para nos recolocar no rumo daquilo que vale a pena.

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