André Costantin: Penelope Obscura - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião28/03/2019 | 14h20

André Costantin: Penelope Obscura

(Ou: o fascinante Dicionário do Pampa de Aldyr Schlee)

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

A janela do quarto do sótão emoldurava a luz da manhã no arvoredo do pátio; no centro do quadro, havia uma ave grande, escura. Ela perscrutava os primeiros movimentos e sons da casa, desde os galhos arqueados do pinheiro velho. Chamei Aurora para ver. A menina logo se interessou pelo bicho e quis saber mais.

— É um Jacu, filha. Busquei no outro cômodo o novíssimo Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-grandense, escrito ao longo da vida por Aldyr Garcia Schlee, lançado postumamente, na semana passada.

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Do Tupi, Ya’cu, a ave negra parece não encontrar no Pampa, pelas observações de Schlee, a acepção por vezes pejorativa que costuma sair das bocas dos habitantes da Serra, herdeiros da cultura da imigração, os “gringos”, quando chamam alguém de Jacu — talvez por um traço submerso da linguagem, revelador de juízos raciais ou de gênero. Hipótese.

A linguagem é a aventura humana. No verbete Jacu, Schlee traz precisas descrições da ave “com plumagem negrusca a ferruginosa”, as origens da palavra, cita seu quase desaparecimento dos capões pampeanos. E, na melhor tradição linguística, apresenta o nome científico do animal: Penelope Obscura.

Leio para Aurora a nossa descoberta, que para mim (re)coloca a palavra Jacu na sintonia que a ave evoca. A menina então já sabe que o pássaro negro que vive em volta da casa pelos guamirins maduros, entoando gritos guturais nas auroras de Monte Bérico, é o Ya’cu indígena, a Penelope Obscura da ciência e do Latim.

Aldyr Schlee foi um intérprete do Pampa e da fronteira. Pensador do Brasil, tão ao extremo do mapa, que podia ver o nosso país quase de fora — um mirante particular para compreender nossa múltipla identidade. A linha imaginária e divisória do meio da ponte fortificada Barão de Mauá, que liga Rio Branco, no Uruguai, a Jaguarão, no Brasil – por sobre o rio de mesmo nome —, era talvez o marco fundador, o mito de origem do escritor.

O autor do Dicionário do Pampa sempre fundiu ficção e realidade com maestria, em sua intensa obra literária; tal como é, no fim das contas, a leitura da vida — verdades e invenções. Não bastasse a literatura (contos, romances, novelas, ensaios, traduções), Schlee foi o criador da camisa da Seleção Brasileira de Futebol, nos anos 1950. A mística “camisa canarinho”, outrora ícone mundial de uma brasilidade vibrante e criativa, hoje sequestrada e ultrajada pela bandidagem do futebol, pelo presidente, seu exército de beleguins (e afins).

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