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Opinião07/03/2019 | 07h00Atualizada em 07/03/2019 | 09h26

André Costantin: Débora

Em vinte anos ela morou em quatro casas. Atravessou meus relacionamentos.

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Um assunto como este não deveria ser crônica de jornal. Mas este é o meu escrever. Débora. Trata-se de um nome que nasceu do nada, e agora se vai, assim, sem psicanálise que desvista o seu mistério.

Por vinte anos temos convivido, desde um janeiro em 1999. Ela sempre me esperou, sempre. Mesmo no auge da senilidade e do grave peso do seu corpinho de quase nada, ela me aguardava meio cega meio surda no portão de casa. Mas ontem ela começou a morrer. E vai desfiando no fundo dos seus olhos amendoados as lembranças mais vivas da minha vida.

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Certa vez, na Ilha do Faial, um senhor narrava coisas de um passado remoto. Há 250 anos, dizia ele, os açorianos que emigravam, quando dobravam a curva da estrada, davam o adeus definitivo aos parentes, amigos, às suas aldeias. E lançavam-se ao deus-oceano. Eram outras humanidades.

Um século depois, novos imigrantes de além-mar aqui chegavam, neste sul do Brasil. A civilização já conhecia a fotografia; as cartas atravessavam mares e continentes. Ainda assim, aqueles homens e aquelas mulheres enfrentavam o desconhecido, as pestes, sepultavam seus mortos pelo caminho, fundavam cidades. Não olhavam para trás. Criavam porcos e galinhas, vacas; sacrificavam seus animais para matar a fome. Depois por tradição.

E, agora, estou eu aqui, homem fraco, um fiapo emocional do século 21, chorando pela minha gata velha. Cada homem em seu tempo e seu mundo. E suas memórias. Lembro: eu andava pelo Kaiser. Alguém trazia a notícia de uma gata parida, lá pelo bairro, pouco leite para a prole. Eu disse: “quero uma fêmea, a mais lanuda que houver”. E veio ela, trazida na palma da mão de uma mulher – Débora, nome imediato, sem um porquê.

Em vinte anos ela morou em quatro casas. Atravessou meus relacionamentos. Sempre olhou por mim, mesmo sendo eu o lado errado. E quando me retirei para o sótão de casa, ela foi lá para cima também. Débora aceitou aquela menina, Tábata; viu nascer Clarice, depois Aurora. Gastou vidas: comeu venenos, caiu num terreno com cães que a destroçaram, levou um tiro na cervical. Sempre voltava.

Nos últimos tempos foi perdendo os sentidos, a destreza – manteve só a conexão mental. Foram longas travessias de inverno, em busca das nesgas de sol pela casa e o pátio, do calor em volta da lareira. Fiz seu refúgio embaixo da escada do porão, onde habita uma costureira imaginária dos sonhos da casa.

Mas agora, ela, tão apegada à vida, entrou a morrer de verdade. Eis que, hoje, o dia amanhece nublado. Ela só quer o sol.

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