Adriana Antunes: cinzas - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião05/03/2019 | 07h00Atualizada em 05/03/2019 | 07h00

Adriana Antunes: cinzas

É preciso penetrar na própria escuridão de tempos em tempos para não perder-se

Temos medo de quase tudo. Medo de quem se esconde na escuridão. Medo dos pesadelos que temos dormindo. Medo dos pesadelos enfrentados à luz do dia. Medo de sonhar. Medo de dormir e não sonhar. Medo de não realizar. Medo do trânsito. Medo dos ciclistas. Medo das perguntas. Mais medo ainda das respostas. 

Temos medo das cartas anônimas, da conta do banco, do imposto de renda, da demissão, da contratação, das lacraias, dos bichos de fogo, dos silvos dos navios ancorados, do lamento interminável dos amantes abandonados, do lixo solto na praia, do lixo que sobra do carnaval, do carnaval, do feriado, do banco fechado, das desilusões. Temos medo do amor, do abismo, do cataclismo, do desejo, de entregar-se, de gozar, de ser feliz, de ser apenas mais um, um joguete, um passatempo, um brinquedo descartável. Medo de não envelhecer. Medo de ficar velho.

Leia mais
Adriana Antunes: poemas do tato
Adriana Antunes: andamos sozinhos, quase sempre
Adriana Antunes: geografia do afeto

Temos medo do samba-enredo, da vergonha, do piu das corujas, dos corvos pousados em casa, do vento que bate no arvoredo.Temos medo de ter férias, de se aposentar, de não ter o que fazer, de deixar de ser útil para a sociedade, medo de que as férias terminem, medo de gostar de não fazer nada, medo do pecado, da condenação da igreja, medo de ter dinheiro e de não ter nada. 

Temos medo de bactérias, de vírus, de doenças, de viroses, de hospitais, de injeção, de estar sozinho, de dar-se conta de que não há ninguém por nós, de que nós nunca estivemos disponível para ninguém também. Medo da realidade. Temos medo da morte, do caixão, do necrotério, do cemitério, da solidão, do abandono, do esquecimento. Medo de ser apenas mais uma foto na lápide. Medo de não ter lápide. Medo do barulho que os jatos fazem no céu, do autoritarismo, da imposição, da arma apontada, da raiva, da força do outro, das faíscas elétricas, das fake news, da burrice humana, do enjoo, das chuvas de granizo, da tosse e do espirro ao nosso lado.

Temos medo dos monumentos, do que está escrito neles. Medo dos que falam baixinho, dos que gritam e até dos que são mudos. Temos medo do céu azul, da unha dos gatos quando ganham cafuné, do vento quando sopra à noite. Medo da sucessão dos dias, do tédio, da frustração, do desgosto, da falta de tempero, do enxame de abelhas, do barulho do mar, dos caminhos desconhecidos. Medo da página em branco, da falta de luz, do banho gelado, de cair no box. Também sempre tive medo de quase tudo.

Temos medo de quase tudo. Mas é preciso penetrar na própria escuridão de tempos em tempos para não perder-se, para saber que perderemos e para nos reconstruirmos todos os dias, apesar dos medos.

Leia também
Lucio Yanel cumpriu trajetória nômade até fixar raízes no Rio Grande do Sul
Lucio Yanel, o argentino que transformou a música gaúcha 

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros