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Opinião04/02/2019 | 09h30Atualizada em 04/02/2019 | 09h30

Marcos Kirst: essa dor que estende a vida

É na dor muscular dos remadores das galés romanas que eu penso ao sair da cama

Qualquer guerreiro bárbaro que viesse a ser aprisionado pelo exército romano, dois mil anos atrás, passava a contar com duas perspectivas, nenhuma delas alvissareira. Se fosse um combatente forte e ágil, acabaria deportado a Roma, onde seria transformado em gladiador para entreter a sede de sangue do público que afluía às lutas no Coliseu. Cedo ou tarde, morreria na arena, derrotado por outro escravizado gladiador que, assim como ele, combatia por um dia de vida a mais. Caso não apresentasse o perfil físico adequado para esses jogos mortais, nosso até então altivo guerreiro bárbaro seria levado às galés, destino também trágico e infeliz, que o transformaria em escravo remador para, com o suor de seus músculos, atuar como força propulsora dos navios de guerra de seus senhores. Tristes e dolorosas sinas.

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Esse destino de dor muscular contínua, fruto de uma vida pautada em esforço físico extremado, tão comum às gentes de antanho, também pode ser constatado nas biografias anônimas dos milhares de operários egípcios que dedicaram suas existências a carregar os gigantescos blocos de pedra utilizados para dar forma às pirâmides de Gizé. Entre os tantos enigmas abrigados no árido cenário daquelas planícies de areia, figura o mistério da tecnologia empregada para transportar os pesados blocos das pedreiras localizadas à distância até o topo cada vez mais alto daquelas estruturas. Na verdade, cada uma daquelas pedras foi puxada pela união de músculos, de força, de suor e de dor, muita dor.

É na dor muscular dos remadores das galés romanas, dos mistos de celebridades e escravos que eram os gladiadores e dos operários egípcios das pirâmides que eu penso ao sair da cama repleto de dores, um dia depois de minha estreia (aleluia!) entusiasmada na academia. Não na de letras, mas na de exercícios físicos mesmo, atendendo enfim a reiterados apelos dos médicos, da esposa, da saúde e da razão. Tudo dói, e não poderia ser outra a fatura decorrente da quebra abrupta de uma vida moldada no sedentarismo. Quantas pedras puxei para cima de Quéops ontem, para acordar desse jeito? Quantos gladiadores enfrentei em Roma? Quantas remadas dei na galé rumo a Társis? Não sei. Só sei que a dor decorrente da busca por mais vida, e de melhor qualidade, certamente é mais bem-vinda do que aquela vivenciada pelos escravos aqui evocados como contraponto. Com a vantagem de que eu, escravo voluntário da busca por saúde, posso exigir remo mais leve na minha galé a qualquer momento e pedrinhas mais suaves para compor a minha pirâmide, se o quiser. E vamos puxar ferro!

A resposta ao questionamento geral apresentado no parágrafo de abertura desta enlutada e triste crônica de segunda, ao deitar os olhos sobre um país que parece se esforçar cotidianamente para ser de segunda, pode ser de múltipla escolha. Em se tratando do horror advindo da tragédia ainda imensurável de Brumadinho, fica difícil não assinalar todas as opções e ainda agregar a elas uma lista também interminável de possíveis causas para definir em que âmbito classificar a origem da catástrofe. O fato é que algo vai mal. O Brasil, conforme Brumadinho nos mostra com a tragédia palpável da perda de centenas de vidas inocentes, moldou-se em um país que chafurda na lama. Na lama física que tragou Brumadinho e nas lamas metafóricas que tragam os brasileiros em todas as instâncias que envolvem suas vidas, como que imersos em um oceano de areia movediça. É assustador. Desesperador. Desolador.

A lama se transformou em entidade presente e perniciosa no cotidiano dos brasileiros. E isso não é natural. Não tem de ser assim. A política nacional chafurda na lama da corrupção envolvendo integrantes de todas (é, todas!) as agremiações partidárias, escancarando o fato de que ética é uma virtude pessoal, e não programática. Os megaempresários chafurdam na lama da ganância e da impunidade. Os cidadãos comuns chafurdam na lama dos ataques pessoais, da agressividade gratuita nas redes sociais, dos xingamentos e achincalhes. A lama do jeitinho, da fraude, da omissão, do ódio, da intolerância, da sonegação, da transgressão, da imposição de direitos e da negligência dos deveres parece ser o ambiente natural em que muitos brasileiros optam por viver. Brumadinho é o alerta palpável da lama que paira sobre o espírito nacional. Somos um Titanic à deriva frente a um iceberg de lama. E por opção pessoal de cada um. Todos somos responsáveis por Brumadinho.

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