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Opinião21/02/2019 | 07h00Atualizada em 21/02/2019 | 07h00

André Costantin: os capitães do Brasil

Entre um capitão e outro, penso se a arte imita a vida, ou a vida copia a arte

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Capitão Jair no cinema comendo pipoca com os filhos muito deve ter gostado do Capitão Nascimento metendo bala na malandragem das favelas no filme Tropa de Elite, que incensava o Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro.

O símbolo da temida divisão policial dizia tudo: a caveira com uma adaga encravada e as duas pistolas cruzadas. Coisa mais bandida não poderia existir, estampada com honra nas viaturas e fardas oficiais da cidade maravilhosa.

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Jair fez carreira no Exército, até farejar a política, do Rio a Brasília. Capitão reformado (?!), completou bodas de prata como deputado, quase incógnito, sob o vão de um dos discos monumentais dos Três Poderes.

Wagner era um ator perambulando pelos teatros do Brasil. Com talento, tornou-se uma estrela na abóboda global. Fez novelas, foi galã, mas ganhou o mundo ao encarnar até os ossos um certo Capitão Nascimento, entre tiros e enredos que ajudaram a formar na cabeça do brasileiro o mito de um herói justiceiro de feições sub-hollywoodianas.

Em cena, um capitão gritava e atirava. Na plateia, o outro capitão surfava na nova onda da direita retrô do país. Em alguns anos, o Capitão Jair sairia da plateia para o palco. O público tomava o mito das telas e o colava no capitão disponível, feito então presidente da República.

Os motivos e as razões que levavam Wagner a dar vida, sangue e humor ao herói policialesco do cinema televisivo – tornado modelo de juízes, capitães, coronéis e outras patentes – passam por questões que até poderiam tocar em uma tênue fronteira moral entre a representação e o real, o entretenimento e a doutrinação – âmbitos sutis e subjetivos que vêm depois dos cachês, da fama, dos contratos, dos fatos, enfim.

Mas o fato é que, entronado o Capitão Jair no poder, o intérprete do Capitão Nascimento agora assina, como autor, um filme sobre o guerrilheiro comunista Carlos Marighella. Por certo há ali outro herói, desta vez à esquerda, em nossa tradição narrativa onde todo personagem ou é totalmente bom, ou 100% mau. Mocinhos e bandidos.

No Festival de Berlim, Wagner Moura dá o recado que a nova plateia gostaria de ouvir. Teatraliza um selinho no deputado Jean Wyllys (outro mito de origem global, vencedor de um BBB). Entre um capitão e outro, penso na velha questão: se a arte imita a vida, ou a vida copia a arte.

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