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Opinião28/02/2019 | 07h00Atualizada em 28/02/2019 | 07h00

André Costantin: a raposeta

Ela costuma aparecer para as crianças que teimam desobedecer seus tutores e se afastam de casa

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Tia Líbera, herdeira de longínquas tradições camponesas, invocou a Raposeta para controlar o ímpeto desbravador da pequena Aurora nos arredores da casa. – “Olha que a Raposeta te pega!” E foi a própria menina, de recém três anos feitos, quem me trouxe a notícia da “Laposeta” que anda lá em Flores da Cunha.

Não só Ela existe, como posso afirmar – testemunha que já fui das artimanhas deste ser aqui nas matas de Monte Bérico – que a Raposeta é uma entidade da montanha; não é totalmente má, mas também não se brinca com Ela. No todo se parece mesmo com uma raposa. Em partes não.

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O focinho e as orelhas, grandes e alertas, têm pelagem castanha com as pontas pretas, como um cavalo baio cabos negros. Mas o corpo da Raposeta, a partir do pescoço, é de um couro escamado; patas longas de graxaim, dedos e unhas de lagarto. Os pelos castanhos voltam no rabo dela, cheio e comprido, indo para o vermelho na extremidade.

Dizem que a Raposeta apareceu há bem 150 anos para os lados de Mato Perso (o mato perdido, na língua itálica dos velhos imigrantes). Depois foi subindo as trilhas dos rios, tornando-se um ser rural e também da cidade. Ela costuma aparecer para as crianças que teimam desobedecer seus tutores e se afastam de casa. Com o movimento hipnótico do rabo, uma dança, a Raposeta encanta o olhar dos pequenos aventureiros e os leva para sua toca no mato ou pelos labirintos urbanos.

Quando isso acontece, as avós ou tias, as mães e os pais, para reencontrarem seus rebentos, têm que saber de exatas simpatias: deve-se levar para o lugar do rapto, se ocorrer no verão, um cacho de uva bem madura ou um copo de vinho doce; se for no inverno, o resgate só se faz com grôstoli ou uma cuca novinha (sem recheio de Nutella, pelamordeDeus!).

Outro poder da Raposeta que deve ser cuidado: quando as crianças comem muito doce ou açúcar antes de dormir, Ela pode entrar pelos vãos do telhado ou das paredes (se a casa for de madeira), para depois invadir os sonhos dos pequenos e ficar farejando o doce, que Ela adora (de fato, crianças em apartamentos sentem-se mais seguras).

Se algum leitor ou leitora tiver o dom do desenho, por favor dê forma à Raposeta, que ainda ninguém o fez. Admiro esse traço antigo de Tia Líbera, (re)inventora de tradições. E me pergunto, sempre: por que os ancestrais deixaram morrer o sanguanel, o basilisco, as bruxas de vários encantos e outros seres fantásticos, motores de medos e coragens, pulsões do imaginário? Talvez pela luta do real, a mais dura das lutas.

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